Home / Opinião / Te.M.Po- Teatro Mundial de Portimão

Te.M.Po- Teatro Mundial de Portimão

Vírgilio Machado
Professor e autor do livro ‘Portugal- História de uma Identidade’

Teatro Tempo, Portimão. Estou no exterior com um palco. Outro Teatro entra em cena . Fim da tarde. Inspiro-me no azul do céu e do rio, com o Sol fugindo. Cores entrelaçam-se em azuis, amarelos e brancos no jardim à minha frente. Observo uns painéis de azulejo. Serão o meu único público. O chilrear dos pardais, porventura, a orquestra. As musas iluminadoras, à esquerda e direita, as figurantes.

Estou no cimo da escadaria. Proponho-me ser único ator de um espetáculo. Como Pilates erguer-me-ei, estenderei e fletirei braços e pernas. O palco está atrás de mim. Levito-me no espaço e no tempo. Pretendo realizar a melhor das viagens. Em Portimão. Como Teatro do Mundo!

Créditos: Visit Portimão, Município de Portimão, 2026

Abro os braços e junto as pernas. Agiganto-me, abraçando o rio. O meu corpo é a verticalidade. A horizontalidade, essa, os meus membros superiores. Estou em transe, em T. Talvez em homenagem a um Teatro. Mas quero ir mais alto; porém. O meu T, esse, vou dedicá-lo ao Tempo. Sim. Pois tenho na minha frente de rio tudo o que preciso. O Teatro do Tempo.

O T acompanha o dos primeiros mapas medievais. Teriam os grandes geógrafos de outrora, Ptolomeu ou Estrabão, obtido inspirado em Portimão? Afinal, o meu gigante braço esquerdo sobranceiro ao rio acompanha a direção da Europa. O direito, esse, o sentido de África. Tal e qual os mapas T medievais o faziam. Rodeados de um círculo. Eram mapas T0. A Ásia estava no cimo. Sinto-me no Mundo. O espetáculo começou no Tempo. E entusiasma-me cada vez mais.

Créditos: Wikimedia Commons, 2026 , Diagrammatic T-O world map – 12th c.jpg Imagem criada com recurso a IA

Mas o que orgulha este lugar ? A água do rio Arade nos meus braços? Sentir neles um fluxo, um curso de vida, um nascente que vem da esquerda, do Norte, da Europa? Que corre para o direito a caminho da foz, do Sul, de África? Pode esse destino orientar-me? Afinal, foi tanto glório quanto inglório para Portimão. Pois a então Vila, dita Nova, fez da farinha, não pão, mas biscoito. Para ajudar o Reino do Algarve no além-mar. Sem que a fome de trigo estivesse aplacada no aquém-mar.

Sim. Estes mapas tiveram inspiração em Portimão. No Teatro do Tempo. A Asia é o cérebro do meu corpo em T. Virado para Oriente. É aí, afinal que se faz Luz. Porque o Tempo de Portimão, o mapa TO, tinha na sua cabeça, no seu cimo, o nascer do Sol, da energia e da luz como horizonte. O berço da religião. Haverá momento, Portimão, mais espiritual e privilegiado no Universo do que aquele que contemplo aqui, na tua cidade, no sentido Oriente, para o rio, à entrada do Teatro o Tempo?

Orgulho-me deste Tempo. Porque não tem nenhuma mecânica, relógio ou artefacto síncrono para nos controlar. É como a fonte que jorra água em todos os sentidos. Em frente ao Teatro. O Tempo em Portimão é global. E circular. Honra o Globo, nome de um primeiro moderno Hotel em Portimão, outrora localizado ali bem perto. Coincidências de um Lazer que também procurou conquistar no Tempo a sua dignidade.

Créditos: Junta de Freguesia de Portimão, 2026

O espetáculo continua. Em direção ao seu clímax. Ele vai- se aproximando. Ah, afinal, Portugal! Também deixaste aqui, junto ao Teatro, uma marca fundamental. Da tua História. Do teu Tempo na Terra. Ela foi global em vários continentes. Tinhas igualmente no teu horizonte, o Oriente. Esse Nascer do Sol que reluzia o oiro, que, pelo mar, navegaste em tua procura.

Fizeste Justiça a Portimão. A água do rio Arade foi o sulco inspirador que te ajudou a desbravares o Mundo. Aqui, deste-lhe um grande e único significado. Colocaste a tua herança, o teu legado junto a árvores, plantas e flores de um Jardim. Que melhor forma de perpetuar memórias? Com a Natureza a seu lado?

Agora apercebo-me. À volta do Jardim 1º de Dezembro. Uma data tão digna para a tua História, a tua independência política. Deste a volta figurada à História de Portugal em Portimão. Selecionaste em azulejo azul, branco e amarelo as cores do teu guião. Cores das cinco quinas. E da esfera armilar. As nacionais. Não estiveste distraído, Portugal, afinal!

Porque ali, no Teatro do Tempo, deste a mão a Portimão. E o T ancestral dos mapas- mundo. Nesse conjunto, revelaste o nome de Portimão. Sim. Porque tinhas o Por contigo. Adicionaste o teu T gigante. Como este tinha de ter suas mãos, a esquerda e a direita, deste os 5 dedos , os 5 painéis azulejados de cada lado no Jardim, para dar a Humanidade a Portimão que a simples Geografia não podia resgatar.

Os teus dedos são cinco. Em cada mão do teu gigante T, Portimão. Indicam a orientação, o caminho, a evolução de um Portugal que ajudou a construir História em dimensão universal. O mais belo dos Jardins Históricos. Os seus pontos cardeais acompanham a História de Portugal. Deixo-me transportar no Tempo. Estou no Teatro do Tempo do Mundo. O de Portimão.

Créditos: Wikimedia Commons, Vitor Oliveira, 2026

Os painéis, na direção Sul- Oeste retratam a História de Portugal, desde o Tratado de Zamora em 1143 até à Restauração da Independência em 1640. O Primeiro acompanha-nos. No Dezembro que dá o nome ao Jardim. Portugal empurrou sempre a sua História para Ocidente, no século XII em Guimarães, Aljubarrota em 1385. Ceuta, África, em 1415; o Brasil no virar de 1500, acompanham o desenrolar figurativo. O meu público bate palmas. Está contente. Acompanha o sentido ocidental da História de Portugal.

Quando a Revolução Liberal de 1820 desperta os tempos liberais na Europa, os painéis viram-se para Norte- Este, o sentido deste continente à esquerda em relação a Portimão. A República em 1910 marca o seu epílogo numa História que só o público que se junta ao Teatro do Tempo em Portimão pode proporcionar.

As histórias figuradas dos painéis azulejares são os guardiões perenes deste Teatro. Do Tempo Histórico, Geográfico, Simbólico que se admira da escadaria do Jardim. Merecem respeito por todos os que nele se abrigam!

Na sua solenidade, na beleza majestática com que contemplo o rio, tenho o conforto dos bastidores, o do Teatro. O meu espetáculo está a terminar. O público aplaude. Retira-se, satisfeito, com os frutos tão vindouros que deixou em Portimão. Um Jardim do Tempo que merece cuidado, guarda, carinho. Que o Teatro do Tempo de Portimão nunca nos abandone. Pois tem com ele o T de Todo o Mundo!

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *