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Telma e Isa dão vida ao palco e fazem da revista um mundo

A alegria é contagiante, com momentos de puro entretenimento durante cerca de duas horas. Toda a gente sai com boa disposição, sorrindo e comentando as aventuras e desventuras protagonizadas pelos atores da revista do Boa Esperança. É um ritual que sucede ano após ano, para gáudio de muitos portimonenses e algarvios em geral, ávidos de rir a bom rir com as piadas, a pronúncia e os quadros idealizados e levados a cena por Carlos Pacheco.

Intitulado ‘Boa Esperança…em Revista’, o espetáculo deste ano volta a ter em Telma Brazona e Isa de Brito as parceiras ideais de Pacheco. A primeira é um caso sério de vocação, sempre pronta a ripostar e capaz de meter as ‘buchas’ que ache necessárias para compor o ‘sketch’. Muitas vezes não aguenta o riso e aumenta o tom da gargalhada em plena plateia. Isa, fadista de créditos firmados, tem uma voz que encanta e cativa. Faz representação desde muito novinha e tem aumentado a sua participação na revista.

O Portimão Jornal dá-lhes hoje o palco, numa conversa deveras agradável, à qual não podia faltar, naturalmente, Carlos Pacheco. Ah…e também houve muito boa disposição!

Telma Brazona acompanha a revista desde que se lembra. “Muito antes de ser atriz já era uma espetadora assídua, uma fã. Sempre gostei muito de revista e de teatro”. Em pequena participava nos espetáculos dos escuteiros e imaginava como seria bom “um dia estar ali, no palco”. Quando Carlos Pacheco lhe fez a proposta, entende, por isso, que não ‘pisou chão’ totalmente desconhecido, embora o fosse em termos de bastidores. Tem 44 anos, entrou no Boa Esperança em 2011 e vai na 15ª revista, sempre ao lado do seu mentor.

Isa de Brito, por sua vez, recorda que Carlos andava à procura de uma “fadista com jeito” e o seu nome foi sugerido por uma amiga comum. “Falou comigo, disse que sabia que eu cantava e representava e marcámos um encontro, no qual me fez ler um texto. Gostou da minha dicção e…vamos então experimentar”.

O convite, todavia, “não veio do nada”, porque Isa já fazia teatro, tendo dado os primeiros passos no Teatro Amador de Quarteira, no qual, entrou outros papéis e sob a direção de António Alvarinho, interpretou Amália enquanto jovem no musical dedicado à grande fadista portuguesa. Os fados, de resto, fazem parte do seu percurso. Tem 42 anos e vai na quarta revista no Boa Esperança Atlético Clube Portimonense.
 
“Não dá para aguentar sem rir”
“Temos momentos hilariantes, sim, é o que mais acontece. Não dá para aguentar sem rir”, justifica Telma, a propósito das gargalhadas que muitas vezes não consegue evitar em pleno palco, quando contracena com Carlos Pacheco.

“Acontece, são coisas nossas da altura, dos bastidores, é difícil explicar. Temos um código visual que diz tudo e muitas vezes não aguento”, reconhece a atriz, com a colega Isa a confirmar essa alegria contagiante.

“O Carlos surpreende-nos com o boneco dele, tipo ter o cabelo ao contrário, os dentes negros, enfim, ficamos desarmadas e rimos. Mas é também isso que dá uma energia extra para representar com mais alegria e diversão, a peça não fica tão linear e tem um acrescento”, justifica, com Telma a frisar que a revista não é representada sempre de modo igual e até nas sessões do mesmo dia há diferenças.

“A nossa química é grande e basta um olhar para provocar o riso imediato. Fazemos dezenas e dezenas de sessões do mesmo espetáculo e eu gosto de mexer com as coisas, mudar as frases, para evitar o tédio, inclusive para nós”, argumenta Carlos, que, como se sabe, é também o responsável pelos diálogos.

Entre os inúmeros episódios ‘não programados’, Telma lembra-se de um, do ano passado, que não hesita em contar. “Ia entrar em cena, com um fato completo, fechado ao meio, mas tive de pedir ajuda a um colega, que, por azar, rebentou o fecho…O Carlos estava no palco e só viu quando lhe surgi à frente, mas não se atrapalhou e exclamou logo ‘vá lá que ela tem a roupa larga’”.

A facilidade de representar chama-se paixão
Carlos Pacheco arrisca mesmo a dizer que ser ator “é genuíno e é fácil”, mas Isa prontifica-se a comentar a expressão. “O nosso trabalho é de paixão. Se nada sentimos, não partilhamos, e, por isso, é que ele diz que é fácil, porque tem essa paixão. Essa facilidade chama-se paixão e representa a felicidade de estar em palco”. Os companheiros dão-lhe razão. “Por muito cansados que estejamos, encontramos energia em frente ao público”.

A conversa prossegue em tom animado e sem guiões, tal não é a espontaneidade dos atores. Isa de Brito compara então as suas atuações e diz que é diferente exibir-se na revista ou numa casa de fado. Se nesta canta de modo mais tradicional, mais sério, no Boa Esperança as músicas são mais populares.

“Sou intérprete acima de tudo e temos de nos adaptar. Também represento enquanto canto e é essa a magia que tem a música. Interpreto o que me é dado, partilhando emoções no fado e procurando chegar aos outros com a minha mensagem”.

Desafiadas, depois, a comentar as facetas de Carlos Pacheco, as duas atrizes não perdem tempo. “É exigente no trabalho, sim, até porque é a cara de todos nós, pode ser chato ou bruto, mas faz parte. Fora do teatro está sempre pronto a ajudar”, aponta Telma, pronta para mais um episódio.

“Ao início pensava que só me repreendia a mim. Um dia levei nas orelhas e confrontei-o. Sabe o que ele disse? Sei que fazes melhor, que és capaz disso”. Carlos sorri e lembra-se de um tique de Telma, que em palco colocava mal as pernas. “Enrolei-as com fita adesiva e não é que resultou!”.

A capacidade de “saberem que conseguem fazer melhor” é fundamental nos ensinamentos de Carlos, que não hesita em afirmar que “hoje em dia a Telma faz tudo bem feito, sei os limites dela e conheço-a por dentro e por fora”. Para todos, contudo, o mais importante é o público, “porque as pessoas levam-nos na memória e saber ler os seus sentimentos é essencial”.


 
“Estão a falar um com o outro ou a representar…”
“O Carlos é ator, encenador, criador, autor, é tudo, às vezes fala como ator ou espetador e temos de fazer essa leitura. Tem tanta coisa dentro de si que vive o momento”, atira Isa. Depois, vem a confiança que ele próprio tem nas suas atrizes, de tal modo que, como lembra Telma, o improviso pode ditar leis. “Tivemos um trabalho de responsabilidade, a seguir à pandemia, e não sabíamos o que fazer. O Carlos chamou-me, ensaiámos às sete da tarde o esquema pensado e às nove e tal estávamos a atuar. Foi um êxito”.

A cumplicidade entre Carlos e Telma já não admira Isa, que, a propósito, confessa que no seu primeiro ano no Boa Esperança perguntava a si própria “se eles estão a falar um com o outro ou a representar”, já que “fazem conversa de tudo e criam cenários por tudo e por nada”. O mentor interrompe, afirmando que “a Isa já vai fazendo isso connosco, respira, entra e brinca cada vez mais com as situações, por mais imprevistas que sejam”.

Entre as revistas em que foi protagonista, a fadista diz que “não há nada como a primeira”, intitulada ‘Nós Somos Revista’. Telma não se lembra do nome da sua primeira, “mas foram tantas e tão boas” que é comum recordar quadros de uma e de outra, elegendo, porém, a levada a cabo depois da pandemia. “Voltámos após aquela fase dramática nas nossas vidas e foi especial nesse sentido”.

Carlos releva um sketch que nunca mais esqueceu, intitulado ‘Quem é que quer ser otário’, e promete continuar. “Vou fazer revista até conseguir, até aguentar. A revista dá-me vida, mantém-me jovem e ajuda mentalmente, pese o cansaço de algumas fases”. As suas pupilas comparam a revista a um vício, durante a qual se abstraem de tudo e soltam um sincero “vamo-nos divertir”.
 
Mais visibilidade e maior reconhecimento
Isa de Brito, natural de Quarteira, é licenciada em Educação Social, mas agora só canta e representa. Telma Brazona nasceu em Portimão e viveu sempre em Ferragudo, trabalhando na Associação Cultural e Desportiva local há mais de 25 anos, sendo ainda secretária – segundo mandato – na Junta de Freguesia. “Só não faço bolos!”, exclama, com a sua habitual graça.

“Tenho pena que a revista não tenha mais visibilidade e reconhecimento no nosso Algarve. Em Quarteira, na minha terra, não existe um espaço físico para atuarmos com dignidade e fazem excursões para nos ver em Portimão. Cresci em cima do palco, por lá passaram artistas como o Camilo de Oliveira e o Fernando Mendes, por exemplo, lembro-me dessa alegria e acho que isso perdeu-se um bocado, a nível até nacional”, lamenta Isa, agora num ‘papel’ mais sério.

A revista do Boa Esperança, prosseguem, tem uma caraterística deliciosa, que “é falar com o calão, uma coisa tão bonita que nunca devia acabar”. Além disso, serve de inspiração para outras pessoas, incluindo os “jovens que perguntam, com alguma frequência, se o Carlos dá cursos, pelo que temos mesmo de perpetuar esta arte”.
O também diretor da coletividade portimonense evoca a “muita gente que já formei” e expressa a vontade de atrair mais e novo público, inclusive das escolas, “desmistificando a ideia de que a revista é má e para velhos” e aproveitando a ocasião para lançar novo repto aos professores. “Ter noção de canto, de coreografia, drama, farsa, comédia…enfim, não é fácil, mas o Boa Esperança tem sido uma grande escola”. À baila vêm nomes como os de João Leote, Joana Rato, Adriana Marques, Edmundo Inácio…

Já em tempo de despedida, surgem as últimas emoções. “Nós apresentamos a essência da revista e temos aqui todas as condições. Os textos, os cenários, o guarda-roupa, levamos tudo atrás quando saímos de Portimão e passamos quase um dia a montar o palco. É difícil de criar, mas depois de estar feito parece simples. E até ficamos com um sentimento de vazio quando o espetáculo vai terminar”.

Encantado desde a primeira hora

“Não conhecia a Telma de lado nenhum”, conta Carlos Pacheco, de certo modo embevecido por falar nas suas atrizes e amigas. Um dia, em Ferragudo, assistia por acaso ao enterro do Entrudo e ficou deliciado com quem fazia o papel de viúva. “Dizia tudo com piada e vi logo que ia além do texto original. Era muito boa, excecional na comunicação e no à-vontade em palco. Passados uns meses, vim à ACD de Ferragudo fazer um espetáculo e reconheci-lhe a voz, andava ela a arrumar umas cadeiras”. Telma até ficou envergonhada quando Carlos lhe disse “vamos trabalhar juntos”, mas, obviamente, aceitou o convite para uma reunião. “Apareceu no Boa Esperança com o marido, por sinal bem alto, e, a partir daí, tornou-se a minha primeira parceira em todos as revistas”. Sobre Isa, o ator e encenador ouviu “maravilhas dela” e confirmou depois que “respira a revista à portuguesa, com uma voz possante, algo rouca, uma verdadeira fadista que desde logo me encantou”. Carlos reconhece que Isa já tinha alguma tarimba na representação e foi fácil a adaptação. “O Boa Esperança sempre foi um viveiro de artistas, de lançamento – comigo sucedeu o mesmo quando o Ilídio Poucochinho me chamou – e hoje tanto a Telma como a Isa já dão ideias e ajudam na criação”. 

Atuações dias 14 e 15 no TEMPO

A revista do Boa Esperança tem exibições marcadas para dias 14 e 15 deste mês no TEMPO, algo especial pela solenidade do palco e por dar oportunidade às pessoas que ainda não viram o espetáculo. A este propósito, Carlos Pacheco confessa que gostaria de ter mais gente de Portimão a assistir, mas reconhece que a cidade está um pouco descaraterizada. “Em proporção, vem mais gente de fora. Não percebemos o porquê, até porque, depois de findar a época, é que nos perguntam se já acabou…”. Sobre as atuações da próxima semana, sublinha que “é sempre um prazer ir ao Teatro Municipal”, de novo para dar o pontapé de saída no festival ‘Humor.pt’.  A revista vai ainda passar por Monchique, Albufeira e Moncarapacho, pelo menos, depois de já ter ido a Lagos, Lagoa, Estoi, Ferreiras, Silves, Loulé, além, claro, de Portimão.

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