Vírgilio Machado
Professor e autor do livro ‘Portugal- História de uma Identidade’
Pinga no pão, Amor! Delicia-me, Portimão, com Sabor! Sei ser generosa para ti! Sabes que fazem de mim troça e escárnio em festas? Queimam-me em trajes figurados? Desenham-me em latas de conserva com cores que não me pertencem? Fazem de mim fraca e ignorante?
Eles não sabem, nem sentem! Mas tenho o olho vivo. E o sonho também comandou minha vida! E foste, Portimão, quem atingiu em cheio meu coração. Sou teu alimento saudável em proteína e gordura inigualáveis. Quero ser bondosa, formosa e saborosa. Porque o mereces, muito, muito!
Conhecem eles, amiga, que bandeei em grandes cardumes pela Sardenha? Que aí quiseram elogiar-me e dar-me nome, berço com que me quiseram capturar eternamente? Nesse Mar Mediterrâneo verde e de cor esmeralda podia ter sido facilmente seduzida e aí ficar sem me dar a conhecer por outros cantos do mundo!
Os bandos, essas primeiras organizações humanas, móveis, predadoras e recoletoras, criaram a arte para me pescar! Fui fonte de alimento para os mais pobres hoje e sempre. Também pão e salvação para os povos do mar, para todos aqueles que não tinham terra para lavrar, cereal para colher e tanta família para sustentar!
Sim. Mas não quis ali ficar. Assustei-me com tanta guerra entre os bandos. De sardos! As 4 cabeças com que minha proteína era partilhada ficaram bandeira em cor vermelha, registando sangue. E cabeças decepadas! Não, não, tinha outra missão a cumprir, outra causa ou missão mais nobre a empreender!

Bandeira da Sardenha
(Créditos: Wikipédia, Xander 89, 2026)
Fui também vaidosa. Quis ser mais esguia, elegante! Viajar para outros mares. Mais frios e azuis. Mais atlética fiquei. Sabes que tinhas a Esperança como desígnio? Acompanhando a civilização europeia, naveguei axialmente para Oeste, o Atlântico na procura de outros horizontes mais enérgicos e fortes para me exercitar e aptos para desovar! Ajudei a construir o Mediterrâneo Atlântico, afinal! Cruzamento fértil para mim e para ti e todas as margens humanas que me acolheram!

Sardinha
Créditos( Confraria da Sardinha de Portimão, 2026)
Na procura da Paz, ganhei a cor branca da prata nessas viagens! Uma barbatana dorsal longitudinal! Com pele escamosa sem ser ardilosa. Para me conservar na tina sem ser traquina. A minha viagem acabou por coincidir com a tua, Portimão! Acompanhei o trajeto daqueles que ansiavam, choravam e sofriam! Sensoriei o sal, sim, aquele que o poeta detetou em lágrimas deixadas pelos pescadores de uma terra chamada Portugal. O sal seria meu sobescrito com que me uniria a Ti!
Em Portimão senti esse Portugal Primeiro! Com o sal. E a traineira ideal! Rochedos à esquerda e direita para me abrigar. Torre altaneira para me avistar. Mas acima de tudo, senti o carinho de um Porto que tinha uma Mão, um coração feito de sofredor Pão na biológica Diversidade de uma Humanidade sentida!

Traineira Portugal Primeiro
Créditos: Postal do Algarve, DR, 2026
Dignificaste-me. Na tua heráldica. Prateada, barbatanada. Em homenagem a mim, às minhas raízes, foste generosa! Registaste o mar verde e de esmeralda do Mediterrâneo onde nasci. Mas também o do mar branco da Paz e do Atlântico que acolhi! A coroa mural das 5 torres em prata é a gloria ao meu triunfo. Associa-me à realização da minha viagem, do 4 axial que rejeitei ao 5 mural que abracei. Num país, num mar, numa região que é aresta, canto, quina da Europa.

Heráldica de Portimão
Créditos: Heráldica Cívica, 2026
Deixa-me agora falar, sardinha! Sou, Portimão, transversal neste Portugal. As cabeças do meu símbolo são agora duas em equilíbrio osmótico. De um lado e de outro. Um seu e o seu contrário. Esse equilíbrio que as tuas guelras proporcionam para eliminar excesso de sal ou falta de água. E sim! É mais uma alusão aos mares e culturas que fazem parte da nossa História. O Atlântico e o Mediterrâneo. Justamente aqueles que percorreste na tua viagem! Com esses mares na nossa génese ficámos também muito mais fortes!
Em cada mão de Portimão que te consome sabes que há um coração! Que te respeita pela fome que aplacaste, pelo sustento que proporcionaste a tantos e tantos pelo teu sacrifício neste mar chão. Que te amam, porque sabem que o teu cerco é eleição e convocação ao coração de melhor peixe do mundo. És a nossa rainha, sardinha!
Ainda porque te celebro em paz e festa com respeito e dignidade. Sem seres zombada, antes, muito, muito apreciada! Um mar sem sardinha retiraria a nossa essência de ser essencial, a portimonense! Sardinha com coração, serás sempre a força e melhor tradição de Portimão!








