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Agosto e a Presença 

Luciana Águas
Psicanalista Mentora para Mulheres e para transição de Vida e Carreira


Através do ecrã do Consultório Emocional, há algo que tenho observado repetidamente: agosto chega envolto numa promessa quase universal de descanso. Falamos de férias, de praia, de viagens, de dias mais longos e de tempo para a família. Parece que, por alguns dias, a vida abranda. Mas, quando o ritmo diminui, aquilo que foi sendo silenciado ao longo do ano encontra finalmente espaço para se fazer ouvir.

É curioso como a rotina consegue esconder tantas emoções. Enquanto os dias se sucedem entre horários, trabalho e responsabilidades, quase não sobra tempo para escutar o que sentimos. Depois chegam as férias e, com elas, um silêncio que, para muitos, acaba por revelar aquilo que sempre esteve presente.

Da escuta atenta, ética e respeitosa que realizo diariamente, nasce uma reflexão que regressa todos os verões: nem sempre estar de férias significa estar verdadeiramente presente.

Há famílias reunidas à mesma mesa onde cada olhar permanece preso ao telemóvel. Casais que descobrem o peso do silêncio quando deixam de ter a rotina como distração. Pais e filhos que partilham o mesmo espaço, mas vivem em universos diferentes, separados por ecrãs que ocupam o lugar das conversas. Há também quem leve o trabalho para a praia, respondendo a mensagens e e-mails como se a mente desconhecesse o significado da palavra descanso.

Talvez o maior desafio do nosso tempo não seja encontrar dias livres, mas aprender a habitá-los.

A presença não se mede pelas horas passadas ao lado de alguém. Mede-se pela qualidade do encontro. Está na capacidade de ouvir sem pressa, de olhar nos olhos, de sorrir sem interrupções, de caminhar sem sentir necessidade de registar cada instante para as redes sociais. Há momentos que só ganham verdadeiro significado quando são vividos por inteiro.

Pergunto-me quantas recordações deixamos de construir porque estamos ocupados a fotografar o momento em vez de o sentir. Quantas conversas ficam por acontecer porque um deslizar de dedo no telemóvel parece mais fácil do que enfrentar um silêncio.

O descanso emocional merece o mesmo cuidado que damos ao descanso do corpo. Também a mente precisa de respirar, de abrandar, de existir sem exigências constantes. Não se trata de fazer mais, mas de estar mais. Mais disponível. Mais consciente. Mais inteiro.

Agosto pode ser um convite precioso para recuperar essa presença. Não exige viagens longas nem grandes acontecimentos. Às vezes, basta uma refeição sem distrações, uma conversa ao fim da tarde, uma caminhada junto ao mar ou um abraço demorado. São esses pequenos instantes que permanecem na memória muito depois de o verão terminar.

As férias acabam, o quotidiano regressa e os dias voltam a acelerar. Mas a forma como escolhemos estar com quem amamos pode transformar qualquer estação do ano. Porque, no fim de contas, o maior presente que podemos oferecer durante as férias — e talvez durante toda a vida — não é um destino, uma fotografia ou um objeto. É a nossa presença inteira.

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