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Saúde Mental X Atividade Física – A disciplina começa na infância – O Desafio dos Pais

Luciana Águas
Psicanalista | Mentora para empresas– Liderança e equipas

No consultório emocional, há pais que chegam exaustos, e antes mesmo de começarem a falar eu já sinto a angústia que trazem. Sentam-se à frente da tela e o silêncio, muitas vezes acompanhado de lágrimas, já diz tudo. A rotina, as finanças, o trabalho e o comportamento dos filhos formam a mistura perfeita para o colapso emocional.

Filhos cada vez mais fechados nos quartos, agarrados aos ecrãs, irritados, ansiosos, sem rotina e sem vontade de sair de casa. A frase que mais ecoa, mesmo quando não é dita diretamente, é: “Eu já não sei o que fazer”.

Ser pai e ser mãe hoje é viver cansado de tentar proteger os filhos de um mundo que mudou depressa demais. As crianças estão rodeadas de estímulos, mas cada vez mais distantes do próprio corpo, da natureza e do movimento. Muitos pais compensam a ausência de tempo com excesso de permissividade, enchendo os filhos de bens materiais. Outros vivem tão sobrecarregados que não conseguem sustentar rotina e presença dentro de casa. E surgem os sinais: ansiedade, irritabilidade, isolamento, agressividade, tristeza silenciosa, bullying… sinais que, ignorados, podem tornar-se doenças profundas.

Algo que tenho observado com frequência é que muitas crianças mudam quando encontram um lugar onde aprendem disciplina através do corpo. Tenho visto isso acontecer no jiu-jitsu. Crianças agitadas começam a desenvolver foco. Crianças inseguras começam a ganhar confiança. Não porque aprenderam a lutar, mas porque aprenderam a respirar antes de reagir. A esperar. A cair e levantar novamente. No tatame, cada treino ensina respeito, regulação emocional e colaboração — porque sem o colega do lado ninguém evolui.

E isto vale para muitos desportos. O futebol ensina convivência e trabalho em equipa. A natação desenvolve concentração e persistência. A dança trabalha a autoestima e a expressão emocional. O atletismo ensina uma coisa rara hoje: continuar, mesmo quando é difícil. O desporto organiza emocionalmente as crianças, dá-lhes um corpo de que gostam, uma mente que se acalma e um lugar onde pertencem.

Esta disciplina reflete-se depois em casa e na escola. Os pais contam que, após algumas semanas de prática regular, os filhos passam a tolerar melhor um “não”, a organizar o tempo de estudo e a falar melhor sobre os seus sentimentos. Não é milagre. É o corpo a aprender uma linguagem que a mente ainda não sabia falar: a linguagem da consistência, do esforço e da persistência.

Não estamos apenas a formar atletas. Estamos a ajudar a formar seres humanos mais preparados para lidar com frustrações, relações e emoções. Uma criança que aprendeu a colaborar, a respeitar o outro e a levantar-se depois de cair transporta essas ferramentas para a vida adulta — e são elas que a protegem do ‘bullying’, do isolamento e dos vícios.

O que verdadeiramente protege uma criança não é afastá-la do mundo. É ajudá-la a construir estrutura emocional interna para viver dentro dele. E, às vezes, essa estrutura começa no primeiro passo dos pais, levando os filhos a uma aula, um campo, uma piscina, um tatame.

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