No Largo Gil Eanes, exatamente no local onde, no passado, a estrada se dividia para Lagos e Monchique, existe, há cerca de 9 anos, uma mercearia diferente, com produtos locais e fabrico próprio de doces e bolos regionais. Mas o negócio teve início, 13 meses antes, noutra loja mais pequena, na mesma zona. Neste estabelecimento, o Portimão Jornal encontrou um simpático casal: Maria da Glória Fernandes, que iniciou o negócio, e o marido, José Armando, que lhe dá uma ajuda preciosa.
D. Maria da Glória, como surgiu a ideia de abrir uma mercearia, aos cinquenta e tal anos, nunca tendo trabalhado no ramo?
Isto foi um sonho de miúda. Eu morava no campo, em Monchique, e tinha uma tia que possuía uma mercearia, onde toda a gente fazia as compras. Ia lá com a minha mãe, achava aquilo muito engraçado e adorava brincar às mercearias, mesmo sozinha. De um lado, vendia; do outro, comprava (risos). Em adulta, de vez em quando, pensava em arranjar uma mercearia, mas nunca me decidi. Entretanto, o meu marido tinha uma oficina automóvel e fui para lá, para o escritório, onde estive 16 anos.
E como aconteceu o salto?
Havia uma mercearia pequenina, a ‘Loja dos Caracóis’, e o senhor dizia-me sempre que, no dia em que se fosse embora, a loja era para mim. Eu levava aquilo na brincadeira, mas nunca disse que não. Um dia, cheguei tarde da oficina, estava a meter a chave à porta e ele estava na rua e disse-me que queria falar comigo. Estávamos a 29 de julho e perguntou-me se queria ficar com o negócio, pois ia fechar no final do mês. “Tenho outra pessoa interessada. Se quiser, dê-me a resposta até amanhã de manhã e fica você com isto”. Fui para casa, falei com o meu marido e ele disse-me: “Se quiseres ficar, fica”. E fiquei. Tomei-lhe o gosto e acabei por mudar-me para aqui, pois necessitava de um espaço maior e melhor.
Mas fugiu à mercearia tradicional e criou um conceito novo?
Tentei arranjar uma coisinha diferente. Foi tudo feito por medida, montado aqui dentro, à maneira antiga.
E porquê ‘Sabores da Serra’?
Porque tenho muitas coisas da serra. Estes produtos de mercearia que vê aqui, em pequenas quantidades, são apenas para ‘desenrascar’ uma pessoa que necessita de um pacote de massa ou outro produto qualquer. O que tenho mais são frutas, que compro frescas localmente, sem passarem pelo frio, as hortaliças que vou buscar ao Vale das Hortas e também tenho uma senhora de Monchique que me fornece. As laranjas, clementinas e tangerinas são de Silves. ‘Sabores da Serra’, porque vou buscar os enchidos a Monchique e ao Alentejo. Depois, tenho os meus bolos e compotas, que faço da fruta, quando começa a ficar demasiado madura. Mas substituo o açúcar por mel, feito em Monchique, muito mais saudável.
(José Armando) E eu a melosa, feita a preceito. Sobre o mel, na época própria, também o temos de medronho, que é menos doce, mais amargo, e que os clientes diabéticos preferem, por ser mais saudável.
Gerir o estabelecimento e ainda confecionar bolos e doces dá muito trabalho e requer muitas horas, não é?
(José Armando:) Se dá! Olhe, uma coisa que ela faz, aqueles queijinhos de figo, é tudo picado à mão. Nas estrelas, a minha mulher só usa os figos adequados e amêndoas nacionais, em vias de extinção. Porque os chamados doces finos que por aí andam são confecionados com amêndoa importada, que não é a mesma coisa. E quem é entendido no assunto consegue distinguir, não só pelo sabor, como pelo formato.
Distingue-se como?
Nos queijos de figo, enquanto as pessoas moem tudo, eu moo uma parte e corto o resto com uma tesoura, em tiras muito finas, para os clientes encontrarem pedacinhos de figo, quando os estão a comer. Senão, não tem piada nenhuma. Mas levo dias a picar um alguidar de figos para fazer os queijos. E sou eu quem torra as amêndoas para as estrelas. Chego a estar três ou quatro meses sem as fazer, porque, se não tiver figos e amêndoas locais, não as faço. Só fabrico com o que é bom!

E faz doces a partir da fruta madura?
Compotas e marmelada. E também biscoitos e alguns bolos.
(José Armando) As pessoas chegam e dizem: “D. Maria da Glória, desejo um bolo de aniversário, mas não quero com aquelas coisas todas por cima”. E ela faz bolos diferentes, porque as pessoas estão fartas daqueles bolos cheios de creme que por aí se vendem.
E também faz pastéis de Natal?
Faço pastéis com diferentes recheios: batata-doce, gila, grão com amêndoa. E também faço bolo-rei e bolo-rainha, mas não tem nada a ver com o que nós compramos para aí. O meu genro não gostava de bolo-rei, até provar o meu.
(José Armando) O ano passado, encomendas aqui da loja, sabe quantos pastéis de Natal ela fez? 960, para entregar em três dias! Este ano, reduzimos para metade, porque é tudo amassado à mão, para manter os sabores puros, e é um trabalho árduo.
E folares, pela Páscoa?
Também. Mas já não estamos novos, não usamos maquinaria e torna-se cada vez mais difícil. O meu filho mete férias, pela Páscoa, para amassar os folares.
“Adorava brincar às mercearias, mesmo sozinha. De um lado,
vendia; do outro, comprava (risos). Em adulta, de vez em quando, pensava em arranjar uma
mercearia, mas nunca me decidi”
Com ovo, ou sem ovo?
Faço com e sem, porque trabalho muito por encomenda, tal como os bolos. Posso ter aqui um bolo ou dois, para vender à fatia, mas a grande força do trabalho é com encomendas, para fornecer o produto fresco, feito na hora. A não ser os bolos secos, que tenho sempre. Uma semana faço duas ou três qualidades e, na seguinte, faço outras. Só os biscoitos de azeite e limão é que tenho de fazer sempre.
A terminar, uma dúvida: as compotas são feitas com mel. E os bolos?
Faço uns com mel e outros com açúcar. Mas só uso açúcar amarelo.
E os caracóis, que eram o chamariz da loja antiga? Ainda os vende?
Continuo e tem sido um sucesso. Olhe, para o dia de maio, é uma fila enorme, também em caracol, aqui à porta (risos). A partir do dia 15 de abril, cá os temos. E o nosso fornecedor não vende a mais ninguém, em Portimão, porque não os distribui aqui. Temos de ir buscá-los. E não vendemos só ao público, mas também a alguns estabelecimentos de restauração famosos por esse petisco.
Não são locais?
São de Marrocos, mas não são de viveiro. São criados ao ar livre. São escolhidos, antes de serem metidos nos sacos. Logo, são limpinhos, grados e saborosos. Em Portimão, não encontra melhores, segundo o que ouvimos da clientela, que regressa ano após ano. E, por encomenda, também os vendemos cozidos.
Também há carne e enchidos por encomenda
“Temos sempre farinheira, bucho de arroz, chouriço, morcela, toucinho e entremeada. E, como não podia deixar de ser, presunto de Monchique e presunto fatiado do Alentejo. Por encomenda, arranjamos febras, entrecosto, pá de porco, etc. São produtos alentejanos, trazidos por um fornecedor de Monchique”, afirma Maria da Glória. No passado, a mercearia chegou a ter a montra cheia de carne. Agora, só por encomenda, pois o volume de vendas está mais fraco e não justifica, para os proprietários, terem o produto em stock. “Também fornecemos pato bom, frangos, galinhas caseiras e perus. Com entrega apenas às quartas-feiras, que é o dia em que os recebemos. É tudo fresco, sem conservantes”, acrescenta. Comercializam também queijos diversos, de várias zonas do país, incluindo a Serra da Estrela.






