Luciana Águas
Psicanalista | Mentora de Vida e Carreira
A influência da luz e da pausa na renovação do psiquismo
No consultório emocional, há algo curioso que acontece sempre que o verão se aproxima. Mesmo através da tela, na distância silenciosa de uma sessão online, eu sinto uma mudança.
É como se algo se abrisse. Um portal invisível.
As pessoas chegam diferentes. Mais leves. Mais soltas. Às vezes até com um brilho no olhar que não estava lá nas sessões anteriores. E reconheço isso sem muitas palavras: o corpo já vai à frente da mente.
O verão, em Portugal, não é apenas uma estação. É quase uma promessa emocional. A ideia de férias, de pausa, de mar, de sol, toca em algo muito profundo em nós — uma espécie de memória antiga de descanso e liberdade. No espaço terapêutico, isso aparece de forma muito clara. Há pacientes que começam a falar com menos defesa. Outros conseguem tocar em assuntos que estavam “fechados” há meses. Como se a luz exterior ajudasse a abrir frestas dentro.
Eu costumo dizer, com delicadeza, que o sol não ilumina só a pele — ele também ilumina partes da alma que estavam em modo de sobrevivência. E isso tem explicações no corpo. A exposição ao sol influencia diretamente o sistema nervoso, a energia, o humor. A vitamina D não é apenas um dado biológico — é também um regulador silencioso do nosso estado emocional. Mas, na prática clínica, vejo algo que vai além da ciência.
Vejo pessoas a voltarem a gostar um pouco mais de si. Vejo uma reconciliação com a própria imagem, com o espelho, com o corpo. Como se o verão devolvesse uma permissão antiga: existir com mais leveza. E, ao mesmo tempo, este portal traz também um desafio importante. Porque o verão não é só festa. É pausa.
E parar, para muitas pessoas, ainda é difícil. Vivemos tempos em que o valor pessoal está muitas vezes associado à produtividade, ao fazer constante, ao “não posso parar agora”. E, quando o corpo pede descanso, a mente sente culpa. No consultório, vejo isso com frequência. Pessoas que sabem descansar, mas não conseguem relaxar.
Aqui, o trabalho terapêutico ganha um lugar essencial: reaprender a parar sem culpa. Porque parar não é desistir da vida. É voltar a ela. O silêncio, o mar, o calor na pele, o simples ato de respirar sem pressa — tudo isso não é luxo emocional. É necessidade humana. Sem pausas, tornamo-nos versões aceleradas de nós próprios, mas menos presentes.
O verão, com toda a sua luz, convida-nos a algo simples e profundo: voltar ao sentir. Trocar o excesso de pensamento pela experiência viva do momento. Talvez por isso este período funcione como um portal. Não apenas para descansar o corpo, mas para reorganizar por dentro aquilo que ficou disperso ao longo do ano.
E atravessar esse portal exige algo simples, mas raro: permissão. Permissão para parar. Permissão para sentir prazer sem culpa. Permissão para não estar sempre em esforço. Permissão para simplesmente ser.
E talvez seja isso que a vida nos pede: menos controlo, mais presença. Porque há coisas que só se revelam quando deixamos de correr atrás delas. E o verão, silenciosamente, lembra-nos disso.








