Virgílio Machado
Professor e autor do livro ‘Portugal- História de uma Identidade’
Casa Inglesa. Uma manhã de sol. Ligeira brisa matinal. Saboreio um café. Contemplo o rio. O Arade de seu nome. Despertam-me sentidos. De água, fluxo, movimento. Talvez também de arar a terra, abrindo-lhe sulcos para lhe permitir o curso até à sua foz.
Ali, em frente fluvial, reflito. Sobre esquerda e direita. Tal como os árabes se orientavam, a esquerda vem do Norte e a direita é para o sentido Sul. Delicio-me. Imagino um Grande Sul. E como os portimonenses para aí se fizeram ao mar durante séculos. Neste navegariam, isto é, agiriam com navios no aquém e no além-mar em artes como o transporte, a pesca e o comércio. Este seria o último desígnio. Que localizaria Portimão no global.

Créditos: Imagem do Facebook, Casa Inglesa, 2026
O café, o chá, o açúcar, o tabaco vendem-se por ali na Casa. Sim. Relembre-se a história quinhentista dos Impérios. O clima frio do Norte precisa de calorias, condimentos, plantas energéticas para acalentar o corpo e apaziguar a alma. O Sul, a África, a India, o Brasil providenciavam tudo isso. E pelo mar fomos à sua procura, reunindo tudo: perícia marítima, força das armas, diplomacia no trato. Fomos dos primeiros a chegar. Mas os últimos a partir. Talvez a dolência e o calor dos trópicos nos fascinaram. Como às trepadeiras.
Os Impérios do Norte em conquista do Sul não foram bondosos na História. Também sofremos dissabores com a força dos ingleses e do seu Império Britânico. Mas, ali, depois do seu crepúsculo, na Casa Inglesa, tudo se apazigua. O inglês, ora investido na condição de turista ou residente temporário, pode ali respirar intimidade e tranquilidade em matutinas horas do dia.
Afinal, Portimão tem uma casa de nome e nação inglesa e esta é aqui bem acolhida. Assim o é há mais de um século. Ao canhão de outrora, temos hoje o poder da simpatia na mão. Assim Manuel Teixeira Gomes, outrora Presidente de Portugal e sempre filho da terra, o apertou a Sua Majestade, enquanto primeiro embaixador naquele Império, após a República. A sua efígie, discreta, em fonte, próxima, homenageia uma vida de político e escritor. E de viajante ilustrado.
O Sol já chegava ao meio-dia. No seu auge, procuro fugir ao calor meridional. E refrescar-me. Dirijo-me para o Mistral, o termo latino para o vento norte dominante e autoritário. Sou atraído como o imã da bussola. Oriento-me como os navegantes por ela, procurando proteção e segurança numa vida aleatória e errante no mar que só a espiritualidade religiosa permite aplacar. Subo a rua 5 de Outubro, inclinada, em direção a um símbolo de outro Império. O espiritual. A igreja matriz de Portimão, representante da Igreja Católica Apostólica Romana.
Na parede em frente, voltada para o meio-dia solar, vejo toda uma extensão este/oeste numa parede intensamente branca. Reflexo de um tempo biológico, onde o ciclo solar marcava a vida humana. E espiritual na procura da eterna purificação e luz. O nascimento do Sol apontado para Este paralelo ao nascimento do filho redentor. Outrora orientar-se-ia para Meca, berço de outra religião. Ensinamentos e doutrinamentos, variáveis consoante as épocas, mas sempre cíclicos. Simbioses históricas, políticas e religiosas unidas em sentidos comuns.

Créditos: Wikipédia, Brextel, 2026
Repouso nas escadas de acesso ao edifício ancião da cidade. Observo a torre altaneira na fachada. É a da esquerda, junto ao coração. Qual mãe matriz que amamenta seu filho e lhe dá o alimento, calor e amor que o sustentam. Reflito. Já vejo um sino no seu alto. Com um relógio mecânico. Tudo direcionado para Oeste. Novos ventos e novos tempos se anunciam.
No alto de Portimão, apercebo-me. Sim. A religião tem ambiente, ali. Sentido de lugar. A torre esquerda na fachada é a dobradiça, a charneira, o ponto cardeal que expõe o movimento de Sul para Oeste, próprio da história de Portugal e de construção do seu Império. Na parede esquerda, a bênção solar dirigida para sul, para o porto. Na torre alta, o sentido da fachada orientado para Oeste acompanha o ciclo da vida e o pôr do sol.
Só que o relógio desperta um novo curso do tempo mecanizado e padronizado. O síncrono para as horas laborais e das empresas. Para seguirmos a pauta no ritmo dos poderes que constituíram o mais recente Império: o dos mercados. Ali, para Oeste, acompanhando o êxito da civilização ocidental, construiu-se também o de Portimão, dito das verduras e do peixe durante quase todo o século XX e, na mesma direção, o mercado municipal do século XXI.
O Ocidente, essa fatalidade para o Algarve, há muito orientada pelo Império Romano e diversos Califados muçulmanos como projeção de desenvolvimento comercial e expansão geopolítica de seus poderes até ao limite oceânico, é a continuação da orientação desta viagem, se descermos da Igreja Matriz para a Praça da Alameda e desta pela Rua São João de Deus até ao novo mercado.
Não nos inibamos nesse percurso sobre a importante Igreja do Colégio, o maior templo religioso no Algarve. E na rua São João de Deus, santo dos pobres e enfermos. Constituem repositórios de memória final dos nossos antepassados na morte e na doença, acompanhando o sentido do dia em relação à noite, ao pôr do sol e escuridão. Não deixando de acompanhar a vocação Oeste, de liberdade, expansão e saída. Ou de semente e esperança num melhor futuro. O Império do Coração acompanha-nos em Portimão.
O passo final desta viagem é o mercado municipal. Numa das saídas ocidentais da cidade. Relembro as palavras sobre mercado do historiador grego Deão Crisóstomo, referindo-se à sua contemporânea Alexandria. Descrevia-o como lugar que junta todo o tipo de homens, mostrando-os uns aos outros e fazendo deles um povo único. Regras, usos, práticas convergem ali num entroncamento e espaço de comunicação único e milenar.

Créditos: Mercados de Portimão; Visit Portimão, Câmara Municipal de Portimão, 2026
Esta é a melhor forma de retratar um Império, hoje, de consumo, mas atribuindo-lhe sentido de lugar e responsabilidade. Ambiental. Cafés, bancas, lojas, monumentos, sentidos, direções são objeto de aprendizagem e estímulo de memória.
Ensinam-se enquanto posição perante os outros em interdependência mútua. Melhorar a nossa orientação no espaço é restaurar o que tem andado perdido e que devemos legar às gerações futuras. Noção de limites, fronteiras, grelhas, lados e sentidos. Nem os mapas digitais escondem os padrões, as ruas, os sentidos de orientação Oeste, Norte e Sul de Portimão. Viver a geografia com história, do global ao local, pode ser um bom caminho. Pois oposições e contradições não são resultados, mas sim processos. Com sentido e coração, vivar-se-ã Portimão.








