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José Francisco é o cantor portimonense da nova geração

José Francisco Almeida da Luz é um jovem portimonense de 22 anos que se destaca na música portuguesa e percorre o país, concerto atrás de concerto. Alegre e divertido, dentro e fora dos palcos, não se nega ao diálogo. Ao Portimão Jornal, falou um pouco sobre o seu percurso.

Como e quando começou na música?
A minha mãe diz que eu já cantava, antes de falar. Não sei se é verdade, porque não me lembro de grande coisa, mas… recordo-me de cantar em casa, em cima da mesa, dizendo que estava a dar um concerto, de ir a karaokes. Sempre houve música em minha casa e esteve sempre presente na minha vida, fosse ela portuguesa ou estrangeira. Mas a minha verdadeira paixão é mesmo a música portuguesa. Os poemas, quando bem cantados, são diferentes. Despertam um sentimento único.

Depois, frequentou o conservatório. Com que idade?
Andava no 5º ano, deveria ter cerca de 11 anos, quando me iniciei. Estudei guitarra clássica, tive formação musical, cantei no coro, mas não cheguei a terminar. Fiquei, salvo erro, pelo 3º grau, porque era muito clássico para mim. Aprendi muito no conservatório e há muita coisa que, se não tivesse ouvido lá, era diferente. Mais tarde, no 10º ano, fui para a Escola da Bemposta, para o curso profissional de música, que acaba por englobar o clássico, mas de forma diferente. Gostei e aprendi muito.

Domina muito bem a guitarra clássica. Toca outros instrumentos?
Sim. Piano e flauta, ainda que esta esteja um pouco esquecida, pois não pratico. No piano, não digo que sou um virtuoso, mas acho que cumpro sempre que é preciso e serve para tentar evoluir. Nos meus concertos, há sempre um momento em que vou para o piano, toco uma música que escrevi para a minha irmã, que vive no estrangeiro, e que considero a minha música mais verdadeira.

Toda essa preparação musical que teve faz de si, além de um excelente cantor, um bom músico?
Sim. E continuo a ter aulas de música, regularmente. É importante, porque uma pessoa não sabe tudo. Estamos sempre a aprender. E, depois, porque vamos ganhando vícios e é sempre bom ter alguém que, de vez em quando, nos chama a atenção para os pequenos detalhes que fazem a diferença. 

Também é um excelente compositor. Escreve as letras e as músicas que canta.
É verdade. Mas, nesta fase, com uma nova equipa, já não sou só eu. Nas três músicas antes da última, o produtor, que também escreve, dava a sua visão, mostrava a amigos, porque é melhor do que ser eu a fazer tudo do princípio ao fim. Chegou a uma altura em que ouvia várias músicas minhas e pensava que era tudo igual. Nesta fase, com uma nova equipa, faço o início, ou dou-lhe um toque no meio, acabando sempre por sair algo com que me identifico. Porque pode ser a melhor canção do mundo, mas não me vejo a cantá-la, se não a sentir. Tal ainda não aconteceu e a nova equipa é incrível. Não digo que as coisas se tenham tornado mais fáceis, mas possuem outra qualidade. Inclui o João Direitinho, que me projetou e é autor de grandes músicas que passam na rádio. Além de uma excelente pessoa, é um grande músico, um artista fora de série.

E os arranjos musicais?
Trabalhamos com grandes produtores, mas acabamos sempre por guiar o caminho que desejamos para a canção.

O público não se apercebe, muitas vezes, desse trabalho de equipa, nos bastidores, que é muito cansativo?
É cansativo, mas dá muito prazer, no final, ver o trabalho realizado com boa qualidade. É sempre um orgulho enorme e não encontro palavras para o descrever.  

É diferente de agarrar numa música já existente e cantá-la, como muitos fazem?
Sim, muito diferente.

A ESTREIA EM PORTIMÃO
Recorda-se da primeira vez em que cantou em público?

Sem contar com os karaokes, a minha primeira vez em público foi no Festival Chaminé D’Ouro, no Teatro Municipal de Portimão. Salvo erro, participei em três. Depois, deixei de ter idade para participar. Mas a presença num grande palco foi no Festival da Sardinha, com o grande fadista Marco Rodrigues, de quem sou grande fã e amigo. É um grande artista e uma excelente pessoa. Ainda hoje olho para o vídeo e pergunto-me: “Aquilo era mesmo eu?”. 

Foi o batismo num grande palco?
Hoje, para mim, todos os palcos são grandes, sejam para cinco ou para mil espetadores.

DA TERRA NATAL PARA A RIBALTA
Mas foi o ‘The Voice Portugal’ que o trouxe para a ribalta?

É verdade, em 2024. Foi uma experiência incrível, pois já tinha ido aos castings, anteriormente, e nunca tinha passado. Agradeço não ter passado, embora na altura ficasse triste e a pensar como era possível. Agora sei como era possível e ainda bem que não aconteceu. Quando fui selecionado, estava mais preparado, estou orgulhoso do que fiz e penso que não alterava nada no percurso. Foi incrível, meteu-me à prova, não só na parte vocal, mas em tudo. Há muito stress, antes de entrar em palco, depois as cadeiras que nunca se viram… ter visto pessoas a cantar incrivelmente bem e a não passarem…, mas finalmente três cadeiras viraram-se. Fui quase no fim, com as equipas quase fechadas, o que tornava as coisas mais difíceis. 

Que percurso se faz até chegar a um casting no ‘The Voice Portugal’? 
Há milhares e milhares de pessoas a concorrer. Temos de nos inscrever no portal; depois, recebemos uma mensagem para escolhermos a nossa hora de casting, para não haver muita confusão. Vamos a um hotel, cantamos dois ou três temas. Às vezes, só cantamos um. Mandam-nos embora, dizendo que até determinado dia receberemos a comunicação a dizer sim ou não. Quando fui ao casting, recebi uma mensagem, estava em Lisboa e tinha a guitarra comigo. Marquei a hora e lá fui, sem ter nada preparado. Toquei, cantei e só me restava esperar. Passada uma semana, recebi uma mensagem a dizer que tinha passado ao casting final. Voltei ao mesmo hotel para fazer outro casting, já diferente. Convidam-nos a cantar determinadas músicas e a escolher as restantes. Voltamos a esperar que nos liguem a dizer se vamos às provas cegas. Chegar às provas cegas já é uma vitória. E, aí, vamos lá um dia ensaiar com a banda e regressamos para gravar. Se correu bem, correu; se correu mal, paciência! Mas nada acaba ali, pelo contrário.

Soube aproveitar a visibilidade que o programa lhe deu?
Acho que sim. E também soube aproveitar as redes sociais, porque era uma ideia que já tinha. Pensei como é que poderia canalizar o que conseguira para realizar o meu projeto de músicas originais. Organizei o trabalho com uns amigos que ainda hoje trabalham comigo. Tentámos subir os números de audiência e que as pessoas ficassem a acompanhar o trabalho e penso que consegui. Estou orgulhoso, mas cada dia me dou mais, sempre a trabalhar. É claro que números são números e o que me interessa é tocar corações, um ou mil, embora mil deem mais jeito do que um para quem quer fazer vida disto.

As redes sociais são uma ajuda preciosa para os artistas?
Claro que sim. São uma boa ferramenta, embora não seja tudo maravilhoso. Há pessoas que espalham ódio de graça, mas é a vida e há que saber lidar com as situações. Temos de estar muito preparados mentalmente para isso, saber que nem toda a gente vai gostar. É como tudo na vida. E estou descansado, porque, ao final do dia, sinto-me orgulhoso com o que estou a fazer. Sei ver falhas, como é óbvio, e é bom ter essa visão e não ter qualquer problema em as ver e conseguir ouvir críticas.

As críticas podem ser benéficas para o artista?
Sim. Por vezes, prefiro as críticas aos elogios. As críticas construtivas ajudam muito, porque, embora cada pessoa tenha o seu gosto, obrigam-me a analisar o trabalho realizado e a tentar melhorá-lo, se possível. E, ao fim do dia, tenho de sentir-me realizado e orgulhoso do trabalho final.

Conseguiu colocar uma canção numa telenovela. Qual foi a sensação?
Não estava à espera. Foi incrível ligar a televisão, começar a ver a telenovela e, de repente, ouvir a minha voz na banda sonora. Foi maravilhoso!

CALOR HUMANO TAMBÉM A NORTE
Neste momento, tem uma agenda muito preenchida e atua por todo o país, mas mais de Lisboa para o norte do que para o sul. Porquê?

Há mais população e mais festas no norte. E, agora, estou a fazer a primeira parte dos Concertos Acústicos dos ÀToa, uma experiência incrível. Mas os leitores devem manter-se atentos às redes sociais, porque muitas músicas novas, que já estão feitas e estão a ser preparadas, vão chegar por esse meio. Têm-me dado um gozo enorme fazer e quero é que as pessoas estejam desse lado para ouvir.

O público é igual, no norte e no sul?
São públicos diferentes, mas gosto de todos da mesma forma, como é óbvio. Mas a maior parte do meu público já se situa em Lisboa e no norte. Tenho estatísticas que me dizem onde as músicas são mais ouvidas e também consigo ter essa perceção nas redes sociais.

A terminar, e antes de desejar muitas felicidades na sua carreira, conte-me o que aconteceu no último concerto em Braga?
No dia 7 de fevereiro, quando ainda estava tempestade por todo o país, fui do Algarve a Braga para dar um concerto. Andámos na dúvida se adiávamos ou não, mas acabou por acontecer. Na frente do palco, estavam cerca de 200 pessoas com chapéus de chuva. Ao fundo, havia uma tenda gigante, onde havia mais de 600 espetadores. Foi incrível, com as pessoas a cantar as músicas do princípio ao fim. A energia do público foi, sem dúvida, surreal. Não me posso queixar do Algarve, mas no norte há qualquer coisa diferente, que não sei explicar. Pode chover ou fazer frio, que eles saem de casa para assistir aos concertos.

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