Desvendar os segredos da língua de Camões é o propósito de Fátima Baldé e Odete Cintra, que todos os domingos, durante um pouco mais de duas horas, têm pela frente uma plateia atenta e curiosa. A iniciativa é da Esosa Associação Africana, que, como o Portimão Jornal já noticiou, decidiu ajudar os interessados a disporem da ferramenta indispensável para comunicar com toda a gente nesta nova fase das suas vidas.
Os alunos, todos migrantes, são maioritariamente oriundos do continente africano, mas também do asiático e até do europeu. O grande objetivo é conseguirem falar e entender o português, de modo a que, quer nos seus empregos quer no simples dia a dia junto da comunidade portimonense, se sintam integrados. As aulas decorrem na Rua da Igreja, nas antigas instalações da Livraria e Papelaria Algarve, bem no centro da cidade.
Uma das professoras, agora reformada, é Odete Cintra, de 73 anos, que viveu e fez família em Portimão. Exerceu a profissão durante 44 anos, andou pelo país, por várias cidades, e vive agora em Ferragudo, para onde se deslocou para tratar a mãe. “Foi tudo por acaso”, conta ao Portimão Jornal, pouco depois dos alunos terem terminado a aula.
“Passei por aqui, vi que já não existe a livraria onde comprava livros, mas, sinceramente, nem conhecia a Associação. Fiquei curiosa, falei com a Fátima e também com um senhor que estava aqui…”.
Palavra puxa palavra, Odete revelou ter sido professora de português e o convite foi quase imediato. “Convidaram-me a dar uma ajuda. Sempre gostei de ensinar, dei aulas de inglês e português ao ensino básico, a crianças, procurando simplificar a matéria”, argumentos mais do que suficientes para aceitar o desafio.
“Acho que eu e a Fátima nos completamos. Ela conhece melhor os alunos e a cultura, está mais habituada a este contexto, e eu estou a adaptar-me. Nós nunca sabemos tudo e é sempre uma experiência nova, uma aprendizagem interessante”, agora já com mês e meio de ‘rodagem’.
“Alguns nem têm o ensino básico”
Fátima Baldé, por seu turno, tem 25 anos e é da Guiné-Bissau, estando há dois anos entre nós. Trabalha na firma de Kevin Freeman, o presidente da Esosa, não se rogando a esforços para agarrar esta oportunidade. “Não tinha experiência, até porque a minha área de formação é gestão. Tirei a licenciatura na Guiné, fiz também um curso de gramática da língua portuguesa, que julguei oportuno e necessário, e, aqui, ajudo em tudo o que está ao meu alcance”.
Fátima é administrativa na empresa do Kevin e trabalha igualmente na Associação, há cerca de um ano. “Vou adquirindo experiência, que é fundamental. Aliás, só posso mostrar gratidão”, prossegue, dando a entender desde logo um sentimento especial.
“O presidente deu-me as chaves do escritório, inclusive para tratar das coisas dele, e isto não tem preço, é uma grande honra e uma enorme prova de confiança. Vou estar sempre com ele”, remata, com carinho, o mesmo que apenas compara ao que nutre pelos pais e familiares diretos.
As aulas são grátis e para 15 alunos, número nem sempre alcançado face à disponibilidade dos próprios, como explica Fátima. São do Senegal, Mali, Guiné-Bissau, Gâmbia, Nigéria, Gibraltar, Índia e Guiné Conacri, entre outras nacionalidades, e o desejo comum é perceberem o português. Vão tirando notas, escrevem frases curtas e até trocam com o jornalista umas palavras de ocasião.
“As dificuldades deles são distintas. Alguns nem têm o ensino básico, outras concluíram o secundário, enfim, é um trabalho que requer esforço para manter o mesmo nível de aprendizagem”.
Pelas cadeiras da sala já passaram alunos – quase todos com idades acima dos 25 anos – que nem o nome conseguiam escrever com desenvoltura. O mais importante, sem dúvida, é falar, para que todos possam comunicar. As professoras dirigem as aulas nesse sentido, que, de resto, é do agrado dos estudantes.
“Uma obra de grande alcance”
A missão da Esosa é promover a união, a solidariedade e a integração, sendo uma organização sem fins lucrativos e dedicada a fortalecer os laços entre pessoas de diferentes países, incentivando a diversidade, o que vem sucedendo há cinco anos, desde a sua criação em Portimão.
“Esta é uma obra de grande alcance e os alunos também têm essa noção. São gratos e querem corresponder”, afirma Odete, sublinhando que o processo de aprendizagem de língua passa pelo ouvir e depois pelo aperfeiçoar das frases, a um ritmo progressivo, destacando ainda a sensibilidade de Fátima em todo o processo. “Considero que isto já é um sucesso e desejo que estes nobres objetivos sejam alcançados e reconhecidos”.
As responsáveis congratulam-se com o empenho dos alunos e revelam que às vezes até lhes levam presentes. “Dizem que os tratamos bem e querem corresponder”, conta Fátima. “Os que estão cá há mais tempo progrediram e têm bons resultados. Creio que as aulas também os incentivam e integram-se com mais facilidade. Da minha parte quero colaborar, gosto de ajudar e dar o meu contributo. E é uma honra para mim estar com a professora Odete”.








