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“Eu estou exausta(o), e deixo meu filho ao telemóvel”

Luciana Águas
Psicanalista e mentora de vida e carreira @consultorioemocionalonline


Se pudéssemos abrir as portas do Consultório Emocional hoje, vocês ouviriam um eco profundo, comum a tantas famílias: o som do cansaço misturado à culpa. «Eu estou exausta, e acabo deixando meu filho na tela (no ecrã/ao telemóvel)”.

Esta frase não é um desabafo isolado; é um dos temas mais frequentes nas nossas sessões. Como psicanalista, vejo diariamente que o problema não é a tecnologia em si, mas o que ela substitui. Vivemos tempos de uma pressa que atropela o afeto.

O telemóvel tornou-se uma “solução” rápida para o silêncio que os pais, drenados por rotinas severas, tanto precisam.

Mas precisamos de falar, com ternura e urgência, sobre o que acontece no psiquismo de uma criança quando a tela se torna a sua principal janela para o mundo.

O Perigo do Labirinto Sem Fio
Entregar um dispositivo com acesso livre a uma criança é permitir que o mundo — com toda a sua beleza e crueldade — entre no seu quarto sem pedir licença. No consultório, lidamos com as marcas deixadas pelo acesso precoce à pornografia, que distorce a visão sobre o corpo; pela violência gráfica, que dessensibiliza; e pelo perigo invisível de pessoas mal-intencionadas e do ‘bullying’ digital.

A criança ainda está a construir o seu “eu”. Ela não possui filtros para distinguir a fantasia da manipulação. Sem a supervisão do adulto, ela fica à mercê de algoritmos que não têm coração, mas apenas métricas de retenção.
Acolher o Cansaço, Despertar a Presença
Não escrevo estas linhas para apontar dedos. Pelo contrário, escrevo para validar que educar hoje é uma tarefa hercúlea. A exaustão dos pais é real e merece respeito. No entanto, a psicanálise ensina-nos que o sujeito humano se constitui através do olhar do outro. Quando o olhar dos pais está fixo no ecrã, a criança sente-se invisível.

A nossa abordagem no Consultório Emocional foca-se na Consciência, não na Culpa. Educar na era digital é, acima de tudo, um ato de presença possível. Não precisamos de pais perfeitos, mas de pais conscientes que entendam que o “não” aos excessos digitais é um “sim” à saúde mental dos seus filhos.

Dicas para Resgatar a Paz em Casa
Para equilibrar a dinâmica familiar e proteger o emocional dos mais novos, pequenas mudanças de ritmo fazem milagres:

  • O Acordo do Olhar: Estabeleça horários onde os telemóveis “dormem” (como nas refeições).
  • A Sala é o Lugar: Dispositivos devem ser usados em áreas comuns, nunca isolados no quarto.
  • O Exemplo é o Mestre: A criança aprende pelo que vê. Se queremos que eles se desliguem, precisamos de mostrar como se faz.
  • Diálogo sem Medo: Converse sobre os perigos da rede com a mesma naturalidade que ensina a atravessar a rua.

A tecnologia faz parte do futuro deles, mas a estrutura emocional é construída no agora, dentro de casa. Sempre é tempo de ajustar o foco e devolver o olhar a quem mais precisa: os nossos filhos.

No Consultório Emocional, cuidamos de quem cuida.

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