Espaço privilegiado no centro da cidade de Portimão, ‘A Casa da Isabel’ preserva a tradição do bolo conventual e tradicional algarvio, sempre com uma ‘pitada’ de muito carinho, na linha de uma identidade própria que faz as delícias dos mais e menos gulosos. “Acima de tudo, queremos manter a qualidade, e, embora possa surgir um ou outro novo doce, a bitola não se altera”, confessa Isabel Ramos, a proprietária, durante uma animada conversa com o Portimão Jornal.
“Pode ser o bolo da avó, o bolo da mãe, ou seja, o sabor que temos em casa e que é parte integrante das nossas memórias. O importante é tentar conservar a imagem, a qualidade e ser fiel à receita, através daquilo que mais nos identifica”, assegura a empresária, consciente de que o encanto da sua doçaria passa, também, pelo acumular da experiência e pela dose de amor colocada em todos os produtos.
“Pode ser o bolo da avó, o bolo
da mãe, ou seja, o sabor que
temos em casa e que é parte
integrante das nossas memórias.
O importante é tentar conservar
a qualidade e ser fiel à receita”
A época natalícia correu bem, com muitas vendas e enorme procura. “É para isso que trabalhamos. Com saúde, claro! Mas foi tudo muito bom e esperamos que 2026 seja igualmente um ano positivo. Apesar da crise, prosseguimos com calma e serenidade e com os pés bem assentes no chão”, adianta Isabel Ramos, aludindo às convulsões mundiais e fazendo votos para que as mesmas não cheguem a este cantinho tão genuinamente português.
‘A Casa da Isabel’ data de 1998, quando abriu ao público, mas a cultura da sua doçaria é muito anterior ao mês de julho desse ano e “vai beber o seu saber as especiarias, à paciência das freiras dos conventos, aos frutos secos do mediterrâneo” e à mistura de civilizações que caraterizam os primórdios e que por cá deixaram marca.
A ‘outra parte’ da doçaria que importava divulgar
Numa história de contornos engraçados que vale a pena contar, e ainda muito antes do nascimento deste estabelecimento, já a atual proprietária fazia da doçaria uma arte de eleição. De facto, Isabel Ramos trabalhava no ramo da pastelaria, ao balcão, quando a empresa a que estava ligada fechou. “Fiquei desempregada e acabei por pensar, naturalmente, que tinha de fazer alguma coisa na vida”, recorda, dando então asas a um sonho que dura até hoje.

“Resolvi avançar por conta própria, começando a trabalhar em casa, sobretudo, para revenda. Acreditava que o produto que fazia era bom e que precisava de ser mais divulgado”. O espaço, porém, era pequeno e não se adequava a um eventual crescimento. “Arranjei outras instalações, com melhores condições, só que não tardou muito a que se tornassem, também, diminutas”. Um belo dia, ao passar pela Rua Direita, deparou com uma casa suscetível de recuperação, e, sem perder tempo, deu um passo decisivo na sua vida.
‘A Casa da Isabel’ não tardou a abrir ao público, para venda direta, dando a conhecer, em primeira mão, o que o Algarve tem de bom. “Além do Dom Rodrigo e do Doce Fino há toda uma outra parte da doçaria, muito rica, que importava divulgar”. Lendo livros e pesquisando, porque não tem formação, Isabel Ramos não desperdiçou o talento e bom gosto que lhe corria e corre nas veias.
A doçaria regional faz a delícia dos visitantes, da famosa trilogia
ao Bolo Real de Aljezur, da Tigelinha de Alvor ao Toucinho do Céu de Espiche, entre muitos outros exemplos
“A formação que tenho é a de estragar e voltar a fazer, treinando as receitas, naquilo que é a minha teoria e a minha prática. Sempre li muitos livros e fui também aproveitando receitas dadas e doadas por clientes, alguns que já não estão entre nós, mas que tiveram essa gentileza”. Obviamente, todas estas ‘relíquias’ foram religiosamente cuidadas, trabalhadas e passaram a figurar no ‘cartão de visita’ do estabelecimento, enriquecendo a paixão pelos bolos e pela doçaria.
De figo, amêndoa, alfarroba…
Sem formação académica ou tão pouco de hotelaria, como já se viu, a proprietária ensinou a arte aos filhos, que, ainda miúdos, lhe davam uma boa ajuda. “Trabalhava sozinha, mas os meus filhos, quando chegavam da escola, ajudavam-me a descascar produtos e a lavar a louça. O meu marido também, com as cenouras e as amêndoas”, evoca, com um sorriso cúmplice dessas boas memórias. Depois, quando os filhos acabaram o liceu, juntaram-se à mãe, a Sara mais dedicada à parte administrativa e burocrática e o João na pastelaria, em plena cozinha, cargos que continuam a desempenhar. A outra filha, a Joana, “só ajuda quando é preciso” e o marido ainda hoje vai metendo a mão na massa, em especial “quando estamos mais sobrecarregados”.
‘A Casa da Isabel’ não parou de evoluir durante estes 27 – quase 28 – anos de existência, mantendo sempre a tradição e as caraterísticas. “Nunca procedemos a grandes alterações e a doçaria apresenta a mesma qualidade, dirigida a todos os clientes ao longo dos anos. É esse o segredo, que tem levado as pessoas a aderirem e a serem fiéis. Hoje, aliás, as pessoas têm uma noção diferente do que é a doçaria e a gastronomia, vão à procura do que é melhor e isso, convenhamos, também ajudou a fidelizar clientela”.
Isabel Ramos tem quatro empregados, dois deles na cozinha, com o filho, fabricando os aclamados bolos. “Temos de tudo um pouco, mas dentro do conceito conventual e regional, muito tradicionais. O que sai mais? É um tema complexo, porque hoje são uns, amanhã outros”, comenta a especialista, sem levantar o véu. “É como perguntar a um pai qual o filho de que gosta mais”, vinca. “Depende do gosto de cada pessoa, não há assim um que saia e se venda mais. E depende ainda do dia, da ocasião. Saem os conventuais, os algarvios, é uma mistura”, garante, revelando que em termos pessoais o enigma não muda. “Gosto um bocadinho de tudo. De figo, amêndoa, alfarroba…embora tenham sabores distintos e definidos, como a alfarroba e o figo, de sabores fortes. É preciso saber gostar de um ou de outro, mas casam muito bem e difícil é dizer qual o melhor. Gosto de bolos, confesso, e, embora não seja gulosa, aprecio um bom bolo. E sou um bocado crítica, ou seja, tem de ser bom e o sabor tem de ficar na boca”.
Bolos pequenos, grandes e à fatia
Pessoas de todos os estratos sociais visitam o estabelecimento, com destaque para os muitos estrangeiros que já têm a casa referenciada e aconselham-na aos amigos. “Trazem o nosso cartão e mostram algum conhecimento, mesmo que seja a primeira visita. Alguns estrangeiros são residentes e passam cá temporadas, tornando-se clientes com quem estabelecemos amizade. Temos igualmente muitos portugueses, incluindo emigrantes, sobretudo através do ‘passa palavra’, que é, possivelmente, a nossa maior publicidade”, considera a anfitriã.
Bem no centro da cidade, no número 61 da Rua Direita, a pastelaria fecha às quartas e aos domingos a partir das 14 horas. A afluência diária é significativa, primando, além da qualidade do produto, pela simpatia de bem receber. “Tem de existir qualidade e bom serviço para o cliente ficar satisfeito. A casa é pequena e queremos agradar a todos”. Os bolos são pequenos e grandes, até à fatia, e todos se vendem, prova de bastante “equilíbrio nas opções”. Tanto se pode beber um café e comer um bolo pequeno como partilhar um bolo à fatia ou tomar um chá e degustar o que de tão apetitoso lhe é sugerido.
“A formação que tenho
é a de estragar e voltar a fazer, treinando as receitas, naquilo
que é a minha teoria e a minha prática. Sempre li muitos livros
e fui fazendo pesquisas”
Isabel Ramos, como já se viu, não elege um bolo como favorito, nem para si nem para o cliente. Mas, se lhe pedirem um bolo tradicional, mesmo hesitante, lá divulga uma lista. “Apresento várias sugestões, como a trilogia de figo, alfarroba e amêndoa, a tarte de alfarroba ou o Bolo Real da Isabel, que comporta amêndoa, limão e canela e recheio de ovos moles e fios de ovos. Temos o Real de Aljezur, que recuperámos a receita, com amêndoa e gila, recheado de ovos moles e fios de ovos e uma glace de açúcar. E mais o de São Brás, o Toucinho do Céu de Espiche, a torta de amêndoa, enfim, uma panóplia de doces. É tudo uma questão de gosto, tipo fazer a seleção e ver o que se encaixa no gosto da pessoa”.
Receitas de outros pontos do Algarve
Curioso é o facto de ‘A Casa da Isabel’ ter recuperado – mantendo depois como apostas – várias receitas de doces de outros pontos do Algarve, como de Espiche e Aljezur, e que, na maioria, foram transmitidas por pessoas dessas zonas. “Poucos conhecem o Bolo Real de Aljezur ou a Tigelinha de Alvor, que nós também recuperámos, feita a partir de amêndoas devidamente selecionadas, com um toque de canela. É muito bom. Da zona do Louriçal, por exemplo, uma senhora que já faleceu passou-me o pastel de Louriçal, que mantenho o fabrico, apesar de não ser da nossa região”.
Entre as solicitações que lhe são feitas, Isabel só participa na Feira de Alcobaça, mantendo viva a tradição de estar presente “numa feira especial e importante para nós”, até porque se realiza num período mais fraco do ano em termos da assistência que é preciso dar em Portimão. “Feiras no verão é mais complicado, porque há alguma sobrecarga de trabalho. Antes do Natal consigo ir a Alcobaça, depois triplicam os pedidos e o fabrico e toda a gente quer um miminho para ter na mesa”, com encomendas diversificadas.
A empresária garante que ‘A Casa da Isabel’ é para perdurar. “Espero que sim e estou fazendo por isso. É disto que gosto, e, embora às vezes me sinta um pouco mais cansada, faço tudo com amor, mantendo a cabeça ativa. É para durar enquanto puder e com ajuda dos filhos tudo se torna mais fácil”, sublinha, contente e feliz com a sua opção de vida.
Vem aí uma nova imagem
Brevemente, ‘A Casa da Isabel’ vai ter uma nova imagem, através de um logotipo apelativo e pronto a captar, ainda mais, a atenção de todos os portimonenses e visitantes. “É uma aposta nossa, fruto de um trabalho que está a ser feito aos bocadinhos, tipo um passinho de cada vez”, confidencia Isabel Ramos, guardando para daqui a mais algumas semanas a divulgação do ‘desenho’. E, aproveitando o tema, diz que “podia haver mais representação da doçaria no Algarve, já que, em termos gerais, os bolos algarvios falham um bocadinho no que diz respeito a representatividade”. Em sua opinião, a aposta devia ‘agarrar-se’ de modo claro na doçaria regional e tradicional, sobretudo porque “as pessoas gostam imenso”, afirma a proprietária, de 66 anos, nascida em Setúbal e há mais de meio século a viver por cá. “Casei com um portimonense e hoje considero-me cidadã de Portimão”, atira.








