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O desperdício que ninguém pediu

David Sousa
Engenheiro especialista em eficiência hídrica e energética Fundador da Esteva Solutions


Ainda é cedo em Alvor quando, no último piso da moradia, o chuveiro volta a correr à espera da água quente. A fria vai pelo ralo. Ninguém pediu aquele consumo. Mas entra na fatura na mesma.

Chama-se desperdício involuntário. Não é conforto. Conforto é o duche à temperatura certa, a sala habitável em agosto, a piscina tratada, o quarto fresco quando o hóspede chega. Desperdício é o consumo à margem do uso: caudal a mais na torneira da cozinha, água quente a circular quando não é necessária, produção fotovoltaica que o edifício exporta ao meio-dia e vai buscar à rede à noite, o escritório que aquece ao sol e depois se combate com o ar condicionado.

No verão, pesa ainda mais. Tanto na moradia onde se vive o ano inteiro, como no alojamento que enche nos meses quentes. O encargo médio familiar com água, saneamento e resíduos subiu de 24 euros em 2017 para cerca de 35 euros em 2026, para um consumo de referência de 10 m³. Por habitante residente, o Algarve tem o maior consumo aparente de água do continente e um consumo de eletricidade também acima da média. Cada metro cúbico e cada quilowatt que não aumentam o conforto ou serviço entram na conta na mesma.

Há uma queixa com fundamento: gasta-se energia e o conforto térmico continua baixo. De dia, a radiação sobreaquece as salas e quartos. O aparelho trabalha em excesso, com sobrecusto e desgaste. A divisão fica quente se o calor não for parado do lado de fora do vidro. Combater o calor depois de ele estar dentro de casa sai sempre mais caro do que o impedir de entrar.

Pedir cuidado não chega. Fechar a torneira, reduzir o tempo de duche, desligar o aparelho: rende um dia. No dia seguinte, a instalação volta a fazer o que foi desenhada para fazer. Não se pede aos clientes, aos funcionários ou à família que façam a gestão do desperdício. O que o reduz são instalações que, devidamente configuradas, não o deixam nascer. Bombas e máquinas a trabalhar de preferência nas horas em que há produção fotovoltaica. Estores no exterior. Ar condicionado ajustado à ocupação real, não ao horário da loja vazia.

O critério é o mesmo em casa e na empresa. Primeiro, mede-se e ajusta-se o que já está em funcionamento: contrato, horas das bombas e das máquinas, caudal, programação do ar condicionado. Esse passo custa pouco e, muitas vezes, chega por si próprio. Só depois, e à medida do que a medição mostrou, se compra equipamento novo. A decisão fica mais simples porque se investe no que falta, não num catálogo.

Numa moradia, até a água quente aparecer no chuveiro do último piso, o volume que corre pelo ralo anda, como ordem de grandeza, pelos 10 a 20 litros. Multiplique pelos banhos do dia. Acresce ainda que uma fração relevante da energia do alojamento vai precisamente para aquecer a água. Os litros que ninguém usou pagam-se em metros cúbicos e em quilowatts.

Na sede do Turismo do Algarve, em Faro, a ADENE identificou em 2026 um potencial da ordem dos 518 mil litros por ano num único edifício de serviços, com medidas de eficiência hídrica que incluem soluções de baixo custo no ponto de utilização. Em auditorias AQUA+ a fogos de habitação, o potencial identificado cai, muitas vezes, na casa dos 30 por cento. Não é poupança prometida. É desperdício que a instalação deixa nascer.

O desperdício que chega à fatura não é falta de cuidado de quem ali vive, trabalha ou se hospeda. É a instalação a gastar o que ninguém usou. O conforto não está em causa. Em causa está um consumo que a fatura não sabe distinguir do serviço.

  • artigo publicado ao abrigo da parceria entre o Portimão Jornal e a StartUp Portimão.

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