A 1ª Companhia de Guias de Portimão iniciou a sua atividade em 1972, e, desde então, tem sido local de formação para muitas jovens portimonenses. Em 2004 encerrou temporariamente e reabriu em 2013/2014. Faz parte da Associação de Guias de Portugal (AGP), um movimento para raparigas que promove o desenvolvimento pessoal, o convívio comunitário e atividades tradicionais, partilhando com o escutismo os mesmos ideais de educação não formal. Para dar a conhecer os curiosos contornos deste grupo, Portimão Jornal falou com Patrícia Seromenho, a chefe de companhia, de 48 anos, com formação em Desporto e rececionista de profissão.
Como é que surge na 1ª Companhia de Guias?
Entrei nas Guias com 11 anos. Na altura, era uma criança e não fazia ideia de que aquela experiência iria marcar tanto a minha vida. Comecei a descobrir o que era ser guia, a viver em patrulha, a assumir responsabilidades e, sobretudo, a aprender através das experiências e dos desafios que eram propostos. Aos 16/17 anos saí, por motivos relacionados com o desporto. Naquele momento, achei que seria definitivo, mas, no entanto, apesar de ter seguido outro caminho durante alguns anos, aquilo que tinha vivido nas Guias ficou sempre comigo. Anos mais tarde, senti vontade de voltar. Voltei com outra idade, outra maturidade e uma perspetiva diferente, mas com a mesma vontade de pertencer e de continuar a aprender. Foi aí que percebi que, de alguma forma, as Guias nunca tinham realmente saído de mim.
Como chega a chefe da companhia?
Chegar a chefe de companhia foi um percurso feito passo a passo, em que fui assumindo responsabilidades, aprendendo com outras dirigentes, enfrentando desafios e descobrindo, em cada etapa, aquilo que podia fazer melhor. Uma das coisas que mais valorizo no Guidismo é precisamente o facto de trabalhar a progressão individual. Cada guia tem o seu próprio ritmo, as suas capacidades, desafios e objetivos. Não se trata apenas de chegar a determinado lugar, mas de crescer enquanto pessoa ao longo de todo o percurso, ganhando confiança e aprendendo a liderar, mas também a ouvir, a delegar, a trabalhar em patrulha e a estar disponível para todos.
Ou seja, muita responsabilidade…
Ser chefe de companhia é, para mim, muito mais do que ocupar uma função. É assumir uma responsabilidade perante as guias, perante a patrulha de dirigentes e perante a própria Associação. É estar presente, acompanhar, orientar e criar condições para que cada guia possa fazer o seu próprio caminho. Quando olho para trás, vejo que o caminho que fiz acabou por me preparar para chegar onde estou hoje. Talvez essa seja uma das maiores riquezas do Guidismo: não existe um único caminho certo. Existe o caminho de cada pessoa, feito de aprendizagens, escolhas, desafios, conquistas e crescimento.
Quantas meninas tem a companhia?
A Companhia tem um efetivo de cerca de 40 elementos, distribuídos pelos vários ramos: Avezinhas dos 6 aos 10 anos; Aventuras dos 10 aos 14 anos; Caravelas dos 14 aos 17 anos; Moinhos dos 17 aos 19 anos; e Dirigentes a partir dos 19 anos.
Só raparigas, porquê?
O Movimento Guidista nasceu na Inglaterra no ano de 1910, dois anos após Robert Baden-Powell (BP) ter formado a Associação de Escuteiros, para rapazes. A sua origem deveu-se à iniciativa de um grupo de raparigas que, em 1909, mostrando vontade em participar nas atividades escutistas, se fardou como os rapazes e apareceu de surpresa no Rally do Palácio de Cristal de Londres, organizado pelos escuteiros, proclamando-se raparigas escuteiras. Baden-Powell, admirado com a sua presença, mas animado com a ideia, decidiu criar, com a ajuda da irmã Agnes, um movimento destinado a raparigas, ao qual deu o nome de Guias, inspirado no famoso corpo de soldados das montanhas da Índia, conhecido por essa designação e reconhecido pela sua coragem, determinação e capacidade de superar obstáculos. Mais tarde, foi sua mulher, Olave Baden-Powell, que desenvolveu o espírito do movimento e o promoveu por todo o mundo. Ser só para raparigas continua a fazer sentido, pois na AGP encontramos um ‘porto seguro’ onde cada rapariga faz a progressão ao seu ritmo…
A Companhia promove o Guidismo. De que se trata?
A abordagem pedagógica do Guidismo combina a utilização de diversas ferramentas educativas, no sentido de alcançar o grande objetivo formativo, que é o de contribuir para o desenvolvimento do pleno potencial e harmonia da identidade pessoal de cada rapariga. O método Guidista tem oito ferramentas, a saber: compromisso, sistema de patrulhas, aprender fazendo, autodesenvolvimento progressivo, simbolismo, cooperação ativa entre jovens e adultos, atividades ao ar livre e vida comunitária. O Guidismo procura contribuir para a formação de carácter, através de uma pedagogia ativa, desenvolvendo capacidades e atitudes e promovendo uma vivência de valores fundamentais.
Que tipo de atividade desenvolve a Companhia de Portimão?
A Companhia de Portimão desenvolve atividades muito diversificadas, procurando proporcionar experiências que contribuam para o crescimento pessoal e para o desenvolvimento de diferentes capacidades. Realizamos muitas atividades ao ar livre, aproveitando o contacto com a natureza e o trabalho em patrulha. Organizamos também jogos de pista pela cidade ou no campo, que permitem desenvolver a capacidade de orientação, a liderança, a autonomia e a tomada de decisões. Estas atividades contribuem ainda para o desenvolvimento das capacidades físicas e motoras, uma vez que envolvem movimento, coordenação, resistência e superação de desafios. Ao mesmo tempo, permitem que as Avezinhas e Guias (neste contexto, o termo ‘guias’ engloba os outros ramos, Aventuras, Caravelas e Moinhos) aprendam de forma prática, divertida e adequada ao seu ritmo de progressão individual.

Quais os pontos mais altos dessas atividades?
Os pontos altos são, sem dúvida, os acampamentos e os acantonamentos, porque são momentos de grande aprendizagem, convívio e união. Permitem sair da rotina, viver em patrulha durante vários dias e colocar em prática muitos dos conhecimentos adquiridos ao longo do ano. Também são muito importantes os jogos realizados na cidade, as visitas a parques e a quintas pedagógicas. Cada uma destas experiências proporciona aprendizagens diferentes, desde o contacto com a natureza e com os animais até à superação de desafios, ao desenvolvimento da confiança e à descoberta de novas capacidades.
Os eventos são a nível regional, nacional…
Os eventos são realizados localmente em Companhia, com mais Companhias a nível regional e também a nível nacional. Tivemos o IX Acampamento Nacional em Alcácer do Sal em 2024 e este ano, em agosto, o IV Acampamento Regional em Tavira.
Como ‘respondem’ as raparigas?
Respondem de forma muito positiva às atividades, sobretudo quando sentem que têm um papel ativo na sua preparação e realização. De acordo com a idade e nível de desenvolvimento, são incentivadas a propor atividades, a partilhar ideias e a participar nas decisões da Companhia. Ao longo do tempo, vão adquirindo ferramentas que lhes permitem ser cada vez mais autónomas e responsáveis. Com o acompanhamento e a orientação das Dirigentes, aprendem a transformar uma ideia num projeto concreto, a planear, a distribuir tarefas, a resolver dificuldades e a avaliar o resultado.

Como classifica o envolvimento delas?
O envolvimento acontece em todas as fases do processo, desde o surgimento da ideia até à realização da atividade. As Dirigentes estão presentes para apoiar, orientar e garantir a segurança, mas procuram não fazer pelas Guias aquilo que elas próprias já são capazes de fazer. Este método permite que cada uma desenvolva competências de acordo com a sua idade e com o seu ritmo de progressão individual. Ao participarem ativamente, tornam-se mais confiantes, autónomas e capazes de assumir responsabilidades.
A curto prazo, o que têm previsto?
Até ao final do ano vamos continuar a desenvolver atividades diversificadas, de acordo com o planeamento da Companhia e com os objetivos definidos para cada ramo. Em 2027, está previsto um Acampamento Nacional do Ramo Avezinha, para crianças dos 6 aos 10 anos. O restante programa será definido no início do ano, tendo em conta as ideias, os interesses e os sonhos.
Onde têm a sede?
A sede está localizada na Rua Eng. Duarte Pacheco, nº 43, em Portimão. É um espaço importante para a realização das nossas reuniões, atividades e momentos de convívio. É também um ponto de encontro para as Guias e para as Dirigentes, onde planeamos e preparamos as atividades da Companhia.
Como são as relações com as forças vivas da cidade?
São muito boas. Tanto a Câmara Municipal como a Junta de Freguesia estão sempre disponíveis para nos apoiar quando necessitamos. Existe uma relação de proximidade e colaboração que consideramos muito importante para o desenvolvimento das nossas atividades e para a presença da Companhia na comunidade. Esse apoio permite-nos concretizar alguns projetos e reforça a ligação com a cidade.
Como é que a comunidade vê o vosso movimento?
Sentimos que a comunidade portimonense reconhece cada vez mais o trabalho desenvolvido pelo nosso movimento. As pessoas já começam a distinguir os vários movimentos existentes em Portimão e a compreender as suas características e objetivos. Temos também sentido um reconhecimento crescente pelo trabalho realizado pelas Avezinhas e pelas Guias, tanto nas atividades que desenvolvemos como na forma como participamos na vida da comunidade. Através das nossas iniciativas, procuramos dar a conhecer os valores do Guidismo, nomeadamente a responsabilidade, a autonomia, a entreajuda, o respeito pela natureza e o compromisso com os outros.
E as relações com os agrupamentos de escuteiros?
As relações com os agrupamentos do concelho são também boas. Apesar de pertencermos a movimentos diferentes, partilhamos os mesmos fundamentos e valores, uma vez que ambos foram fundados por Baden-Powell. Ao longo do tempo, temos realizado atividades conjuntas e participado em iniciativas para as quais somos convidadas pelos agrupamentos de escuteiros. Estes momentos são importantes porque permitem criar laços, partilhar experiências e aprender uns com os outros. Existe uma relação de proximidade, respeito e colaboração entre os movimentos, e, embora cada um tenha a sua identidade e a sua forma própria de trabalhar, temos objetivos comuns.
Em termos pessoais, qual o seu maior desejo?
O meu maior desejo é ver a Companhia de Portimão crescer, não apenas em número, mas sobretudo em união, dinamismo e espírito de equipa. Gostaria de continuar a criar condições para que mais crianças e jovens possam conhecer as Guias, viver esta experiência e crescer através dela, desenvolvendo competências, valores e amizades que possam levar consigo para a vida. Ao mesmo tempo, desejo que a Companhia continue a crescer de forma saudável e sustentada, mantendo a sua identidade e os valores que nos orientam. Para mim, ver a Companhia crescer significa também ver cada Guia crescer individualmente, alcançar os seus objetivos e descobrir o seu próprio potencial.
A maior associação de jovens raparigas do mundo
A Companhia de Portimão, como já se viu na peça principal, faz parte da Associação Guias de Portugal (AGP), uma associação de utilidade pública, sem fins lucrativos. A sua ação é assente no voluntariado e promove o Guidismo, movimento de educação não formal, baseado no método criado por Robert Baden-Powell e que tem como missão proporcionar às raparigas e jovens mulheres a oportunidade de desenvolverem o seu potencial como cidadãs universais responsáveis. Em Portugal, a AGP é a maior associação juvenil feminina e tem como principais objetivos proporcionar às raparigas atividades que lhes permitem desenvolver capacidades e competências para que se tornem cidadãs responsáveis, atentas e ativas. O Guidismo teve início em 1910, em Inglaterra, e hoje existem mais de 10 milhões de Guias espalhadas por 150 países, naquela que é a maior associação de jovens raparigas do mundo. Em 2024, no X Acampamento Nacional, o então Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa condecorou a AGP como Membro-Honorário da Ordem da Instrução Pública. Este ano, comemoram-se os 95 anos da AGP em Portugal.








