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Entre o trabalho e a família: a culpa silenciosa dos pais nas férias

Luciana Águas
Psicanalista | Mentora de Vida e Carreira


No consultório emocional, julho e agosto trazem sempre a mesma frase, dita por pais diferentes com o mesmo cansaço na voz: “Devia estar mais presente, mas não consigo”. Há, nessa frase, uma dor que não é preguiça nem desorganização — é o desencontro entre o tempo que o calendário escolar oferece aos filhos e o tempo que o trabalho continua a exigir aos pais.

Vivemos na Algarve, onde o mar está ali, ao virar da esquina, como uma promessa diária de descanso. E, no entanto, quantos pais atravessam o verão a olhar para a praia pela janela do trabalho, sabendo que ela existe, mas sem tempo para a habitar? Há uma ironia silenciosa em viver junto ao paraíso e sentir que ele pertence aos outros.
E quando falo em trabalho, não falo apenas da demanda que está por todo lado. Falo também das mães e dos pais que passam o verão atrás de um balcão num centro comercial, numa caixa de hipermercado, de uniforme na hotelaria, a limpar quartos que outros vão desfrutar, a servir mesas num restaurante enquanto o filho espera em casa pela hora de jantar. É precisamente no verão que estas profissões mais exigem. Há um cansaço duplo: o corpo exausto de servir os outros, e o coração dividido por não poder servir os próprios filhos.

As férias escolares são, para as crianças, um tempo suspenso. Para os pais que trabalham, são um tempo que se multiplica: conciliar reuniões com campos de férias, turnos com idas à piscina, prazos com o pedido simples de um filho — “ficas comigo hoje?”. É neste espaço apertado que mora o cansaço mais difícil de nomear: não apenas o físico, mas o emocional. O cansaço de estar presente sem estar inteiro.

Há, é certo, vantagens em viver junto ao mar durante este período. O fim do dia oferece algo que muitas cidades não dão: um pôr do sol acessível a pé, uma caminhada na areia. Mas não é igual para todos: quem sai de um trabalho às seis é diferente de quem sai de uma cozinha de restaurante às onze da noite, exausto demais para pensar em mar.

Há também o outro lado, mais silencioso. A sensação de estar sempre a dever qualquer coisa a alguém — ao trabalho, quando se está com os filhos; aos filhos, quando se está a trabalhar. A culpa instala-se não porque os pais amem menos, mas porque a sociedade ainda não criou tempo suficiente para todos os amores que uma pessoa carrega em simultâneo.
Não creio que a resposta esteja em fazer mais, nem em sentir menos culpa por decreto. Talvez esteja em olhar com honestidade para aquilo que é possível. Um fim de tarde na praia, sem telemóvel, pode valer mais do que um dia inteiro fisicamente presente, mas mentalmente ausente.

Estes pais que trabalham em agosto — atrás de uma cozinha ou de um balcão — não estão a falhar. Estão a fazer o que conseguem, dentro de um sistema que raramente foi pensado a pensar neles. Talvez o mais importante não seja resolver o dilema, mas nomeá-lo em voz alta, para que deixe de ser vivido em silêncio.

Porque, no fim, as crianças não guardam a memória de umas férias perfeitas — guardam a memória de um pai ou de uma mãe que, mesmo cansado, escolheu sentar-se ao lado delas, ainda que por pouco tempo, e olhar verdadeiramente para elas.

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