O Agrupamento 1398 Nossa Senhora do Amparo é o terceiro e o mais novo de Portimão, convivendo assim com o 159 e o de Alvor, grupos que já existiam no concelho. Foi fundado em 2017, data em que passou a integrar o Corpo Nacional de Escutas, e a sua história tem contornos singulares, logo a começar pelos primeiros passos, dados por um casal cuja ligação ao escutismo se resumia, então, à participação das filhas. Hoje, tem um número recorde de elementos e promete continuar a desenvolver a sua atividade em prol dos jovens e da comunidade.
Helena Gaspar, uma portimonense de 53 anos, é enfermeira de profissão e a chefe do agrupamento. O primeiro contacto que teve com o mundo do escutismo foi através das filhas, que estavam num outro agrupamento. A ideia surgiu de modo algo imprevisto, embora com o cunho do marido: porque não formar outro agrupamento? “A ideia inicial foi dele, que gosta muito de aventura e da natureza. Eu fui, digamos, obrigada a participar”, confessa, enumerando os primeiros passos da criação do grupo.
Como nunca tinham sido escuteiros, foram obrigados a alguns procedimentos e falaram com o chefe regional da altura, o chefe Cercas, figura carismática do meio, que desde logo deu ‘luz verde’. O processo arrancou e o chefe Cercas reuniu e nomeou três dirigentes e um assistente. Helena Gaspar e o marido, Pedro, integraram essa equipa inicial, candidatando-se a dirigentes e tendo de fazer, naturalmente, a indispensável formação.
A ideia original remonta a 2016, tipo agrupamento provisório, mas a data oficial da fundação é a de 2 dezembro de 2017, como conta Pedro Gaspar, elemento da PSP de Portimão, 56 anos e alentejano de São Romão, junto a Vila Viçosa. A nível de escutismo a experiência era zero, mas, como paraquedista, sempre teve um gosto especial pela natureza. “Estive três anos nas forças especiais e foi uma experiência muito bonita. Então, quando surgiu esta ideia de formar o agrupamento, foi só dar sequência”, atira o agente, que desde o início do século se ‘transferiu’ para Portimão.

Lista de espera atesta crescimento
Nem tudo, porém, foram facilidades, inclusive porque faltava uma paróquia para ‘assistir’ o agrupamento. “Eu cresci nesta, da Nossa Senhora do Amparo, fiz aqui a primeira comunhão, e, então, pensámos ‘porque não aqui?’. Falámos com o padre Luís Amaral e assim se deu início a esta caminhada”. Seria o padre Frederico, todavia, o primeiro assistente, seguindo-se Francisco e o atual, que é Rui Fernandes, também assistente regional. Todos os agrupamentos, note-se precisam de um assistente.
Helena, Pedro e mais dois casais, igualmente pais de escuteiros, foram convidados e formaram a equipa que alavancou o 1398. “As coisas começaram a acontecer, após as formalidades inerentes. Fizemos a formação e hoje só restamos nós os dois, já que os outros saíram por várias razões. Eu sou chefe de agrupamento e o Pedro é chefe da 3ª secção, que engloba os miúdos dos 14 aos 18 anos”, esclarece Helena.
As secções, recorde-se, são quatro: os lobitos, dos 6 aos 10 anos; exploradores, dos 10 aos 14; pioneiros, dos 14 aos 18; e caminheiros dos 18 aos 22, idade após a qual passam a dirigentes se resolverem continuar no escutismo.
A direção do Agrupamento integra o chefe, assistente, tesoureiro, secretário e os diferentes chefes de unidade das secções. “Atualmente, somos 143 elementos, que é um número muito bom. Em 2018 tínhamos 105 e desde aí foi sempre a crescer, apesar de uma ligeira estagnação em 2021, por causa da pandemia. Até temos lista de espera”, acrescentam os responsáveis.
Há um limite de escuteiros por secção que não pode ser ultrapassado, de acordo com a plataforma nacional que obriga a obedecer a algumas regras. Os miúdos, de resto, estão todos inscritos nessa plataforma e têm seguro. A nível de tesouraria também é primordial a transparência, privilegiando os bons costumes de uma atividade tão nobre como o escutismo.
“Nunca precisámos de fazer captação de miúdos, que foram aparecendo desde o início. A Paróquia também tem catequese – todos os nossos escuteiros andam na catequese – e importa sublinhar que toda esta dinâmica do Agrupamento trouxe uma grande vida à comunidade”, destaca Helena, satisfeita com o consolidar de um projeto do agrado dos portimonenses.
“Escuteira desde sempre”
O 1398 começou a atividade no Centro Paroquial, que tem boas instalações, com o senão de as secções terem de ficar separadas. “O espaço é fantástico, mas somos um grupo que precisa de estar junto. Há dois anos surgiu esta hipótese, na zona da cripta da igreja, onde antes era a Cáritas, e, embora tivesse havido alguma estranheza de princípio, aqui estamos todos juntos, a adaptação foi boa e o ambiente nesta sede é mais escutista”, não obstante a necessidade de efetuar alguns melhoramentos.
“Somos todos voluntários, com vida própria e família, e isto é para servir a população. Achamos que já fizemos coisas fantásticas e o apoio da comunidade é total, mesmo dos padres”, explica Helena, enfatizando as boas condições e o facto de “o nosso assistente ter sido escuteiro toda a vida”, o que representa uma importante valia.
O casal, como já se disse, não tinha passado no mundo do escutismo. Das duas filhas, a mais velha (26 anos) já saiu do meio e a outra (20 anos) integra os caminheiros. Pedro insiste na sua paixão pela natureza, o que ainda mais facilitou a integração, apesar de “a parte burocrática ser mais complicada”. Já Helena trilhou outro caminho. “Eu fui obrigada, diga-se assim, pois não me via, por exemplo, a acampar. Até os meus pais acharam estranhíssimo. Antes, só se fosse num resort, e, agora, é como se tivesse sido escuteira desde sempre”.
Helena recupera esses passos, com evidente satisfação. “Eu não escolhi o escutismo, o escutismo é que me escolheu. Vim arrastada e acabei por gostar. Esta pedagogia e filosofia, a promoção da autonomia, da solidariedade, fazer dos miúdos cidadãos ativos, enfim, acabamos por nos envolver”, confessa, destacando também o encorajamento dado pelo marido, que “é o máximo em termos de orientação e organiza imensas atividades”.

Prestes a festejar o nono aniversário, o grupo da Quinta do Amparo ainda se considera “o bebé do Algarve”, apesar de dispor do maior efetivo. “Temos boas relações com os nossos irmãos escuteiros” e é habitual uma atividade conjunta, sobretudo com o Agrupamento 159, como já sucedeu em alguns dias comemorativos e na receção da Luz de Belém, em dezembro de 2024, a nível nacional.
O método escutista e o sistema de patrulhas
O 1398 tem um vasto plano de atividades, algumas propostas pelas secções, vulgo “empreendimentos”, e é com um misto de orgulho e satisfação que Pedro e Helena recordam a deslocação a Roma, há dois anos, com um contingente de 29 elementos. Agora andaram por Peniche e Berlengas e pretendem valorizar estas deslocações, sejam regionais, nacionais ou ao estrangeiro, para alargar horizontes.
É nesta altura que abordam o ‘método escutista’, uma pedagogia criada por Baden-Powell, o pai do escutismo, que visa o desenvolvimento das crianças e jovens através de atividades e trabalho em equipa e promove valores como a lealdade e o respeito, definindo ainda compromissos éticos e morais. Neste contexto, os responsáveis da Quinta do Amparo citam o ‘sistema de patrulhas’, um método que envolve a formação de pequenos grupos permanentes, com a supervisão de um líder, em que a autonomia e a responsabilidade são essenciais nessa experiência e aprendizagem.
O relevante é que “cada um tenha a sua função, do guarda material ao líder, ao socorrista, todos participando para o bem comum, cozinhando, lavando a loiça, montando as tendas e arrumando tudo”, salienta Helena, rendida às “maravilhas do método e ao sistema de patrulhas”.
Os jovens do Agrupamento 1398 dedicam-se a outros afazeres, da natação ao basquetebol, do futebol ao padel, mas, por norma, conseguem equilibrar os seus tempos e conciliá-los com o escutismo e os estudos. ‘O teu grupo está a contar contigo’ é, de resto, uma das máximas dos responsáveis. As atividades, além dos acampamentos ou acantonamentos (espaço fechado, para os lobitos), estendem-se ao apoio à comunidade, inclusive em termos de limpeza. Depois, há o convívio com miúdos de outras zonas, em especial na região algarvia.
Um Alpha… de sobrevivência
De Monchique à Mexilhoeira ou ao Porto de Lagos são vários os locais onde o grupo instala as suas tendas e acampa. Recentemente, a Câmara Municipal cedeu um terreno, no Porto de Lagos, num antigo aterro, um campo ótimo no qual só fazem falta as indispensáveis árvores para dar sombra. O protocolo de cedência abrange outros grupos, e, entre eles, a 1ª Companhia de Guias de Portimão, destinado só a raparigas. Curiosamente, o 1398 tem nas suas fileiras mais raparigas que rapazes.
No que diz respeito a receitas, os miúdos pagam quotas de 12 euros/ano, um valor irrisório. O contrato-programa com a Câmara Municipal representa uma mais-valia fundamental, e, além disso, “fazemos também angariação de fundos através da venda de bolos, porta-chaves e velas”. Já houve um arraial com bifanas e um ‘got talent’ para toda a comunidade, numa mescla de soluções para obter mais receitas. As festas são no Centro Paroquial e a Paróquia ajudou na construção da sede. “Temos um bom percurso”, resume a chefe do Agrupamento.
Há o caso peculiar dos miúdos da 3ª secção, que se esmeram na promoção e efetivação de uma atividade denominada ‘Alpha’, inspirada no filme com o mesmo nome, em que a sobrevivência é o mote e se estreitam laços com os vizinhos e grupos de mais longe. Nesta atividade, inventada pelo próprio Pedro e pela sua equipa, num claro sinal de proatividade que já é imagem de marca do grupo, as boas-vindas foram dadas na Câmara, a 170 presentes, e depois, como havia previsão de chuva, todos pernoitaram numa escola.
A Quinta da Rocha e o Morgado de Arge, por exemplo, têm dado ‘guarida’ aos participantes (todos pioneiros, dos 14 aos 18 anos), sendo que o próximo ‘Alpha’, a realizar por altura da Páscoa, será em abril em 2027.
“Todos adoramos isto, nós e os miúdos, e é mesmo para continuar, por muitos e mais bons anos. Com vontade e prazer arranjamos sempre tempo, mesmo que às vezes seja necessário gerir 143 pessoas”, argumenta Helena, uma chefe dedicada e entusiasta, como se viu, aliás, no recente Festival da Sardinha, onde o 1398 não podia faltar.
Peregrinação a Fátima é ponto alto
A peregrinação a Fátima, nos dias 26 e 27 de setembro deste ano, é um ponto alto na programação do grupo da Quinta do Amparo, que vai marcar presença com cerca de 90 elementos. Trata-se da Peregrinação Nacional do Corpo Nacional de Escutas, cujo regresso a Fátima faz-se sob o tema “Sentes-te ca’PAZ?”. As atividades, como já deu para perceber no texto principal, são muitas e variadas durante o ano, desde o Acanac (Acampamento Nacional de Escuteiros) ao ‘Alpha’. O plano final de 2026/2027, porém, será aprovado em setembro pelo conselho de agrupamento, que reúne todos os investidos mais os caminheiros que têm direito de voto. “Onde vão uns vão todos”, atiram Helena e Pedro, frisando que a Paróquia também tem atividades, mas a abertura para que tudo corra bem é sempre total. “Os caminheiros foram agora a Viseu e estivemos em Évora, no concurso de música escutista, com uma música original, em que ficámos no 1º lugar”. Os derradeiros destaques vão para o ‘Acampais’, um acampamento com os pais, que “fazem comida, jogos e querem mais”, e para o ‘Tecoree’, um despique de técnicas de orientação e construção, com a obtenção do 4º lugar a nível regional. “Os miúdos são sempre a nossa prioridade. Incentivamo-los a ir e a desfrutarem e damos-lhes todas as ferramentas”.








