André Segurado, 40 anos, decidiu publicar um livro que foi aperfeiçoado ao longo de vários anos, numa procura constante de perfeição. É uma obra de ficção científica, intitulada ‘Ecos da Escuridão – Sombra Cadente’, publicado pela editora Oficina da Escrita, que foi apresentado ao público no dia 12 de julho, no Clube União Portimonense. Será o primeiro de uma trilogia.
A obra, a que o Portimão Jornal teve acesso, revela uma história com um mistério permanente que obriga a continuar a ler. Em conversa com o autor, estivemos também com outros elementos desta família talentosa, sempre pronta para servir a comunidade portimonense.
Quem é André Segurado?
Tenho 40 anos, sou licenciado em Tradução pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e trabalho para a Organização Mundial da Saúde, embora a inteligência artificial tenha reduzido consideravelmente, nos últimos anos, o volume de trabalho. Por essa razão, iniciei, recentemente, atividade no setor imobiliário. Desde criança que sou apaixonado pelo imaginário e fui inspirado por Dostoievski, Tolkien, Brandon Sanderson e George Orwell. Graças ao trabalho de tradução, acabei por ganhar o gosto pela escrita. O livro foi escrito, originalmente, em inglês e depois traduzi-o para português. Isto, porque o inglês é a língua em que penso, quando escrevo. Depois, pensei que gostaria que os meus pais e restante família o lessem e, sendo tradutor, passei-o para português. E também por considerar mais fácil trabalhar com as editoras nacionais. Mas está editado nos dois idiomas.
Sendo assim, foi prejudicado pela inteligência artificial. Como a classifica em termos criativos?
Considero-a um bom utilitário, mas nunca uma entidade criadora. Por exemplo, quando estou a escrever, tenho duas ou três ideias e uso-a para analisá-las ou desenvolvê-las, mas a decisão final será sempre minha. Mas há que saber o que queremos e saber colocar as questões. Por exemplo, tenho quatro ideias e dúvidas em como abordá-las. Digo-lhe que, nesta ideia, o problema é este; naquela ideia, a dúvida é aquela… e ela diz-me que cada problema pode ser resolvido desta ou daquela maneira, sendo a decisão final minha. O problema com muitos jovens é que se limitam a pedir-lhe que faça determinada tarefa e aceitam cegamente o que lhes fornece e que, muitas vezes, está errado. É necessário saber fazer a pergunta certa, o que quer dizer que temos de conhecer o assunto. E, depois, saber contradizê-la, questioná-la, dizer-lhe para nos fornecer as fontes, etc. É um excelente auxiliar para rever textos, mas não evita uma revisão final efetuada por um humano.
Tendo nascido numa família onde a música impera, não seguiu a carreira musical. Porquê?
Tal como o meu irmão mais velho, fui para o conservatório e cheguei a fazer o 5º grau de formação musical e coro e o 2º grau de piano. Depois, o máximo que fiz foi aprender a tocar guitarra com o Tuniko Goulart e acabei por realizar o sonho de estar em palco com o meu pai e o meu irmão, cantando e tocando guitarra. Nunca fui grande músico e tenho uma guitarra em casa, na qual não toco, há anos.
A inteligência artificial na criação
Segundo Paulo Segurado, que considera a arte algo muito humano, em que cada um tem a sua perspetiva própria, dando origem a diferentes formas de expressão artística, a IA é um instrumento auxiliar, pode ser um bom utilitário, mas nunca a entidade criadora. “Não tem alma. Apenas usa os algoritmos introduzidos pelos homens”. Durante décadas, a música foi a linguagem da família Segurado. Hoje continua a sê-lo. Mas, pela primeira vez, tem as palavras por companhia. E, se André Segurado cumprir a promessa de concluir a trilogia que agora iniciou, talvez a literatura passe também a fazer parte do património desta família portimonense.
O irmão Paulo lidera Clube União
A música era presença constante em casa e, por isso, Paulo Segurado, aprendeu a viver com ela, desde que nasceu, há 45 anos. “Aquela casa nunca não teve música” é a sua frase preferida. Foi absorvendo, de forma natural, a formação básica. Aos oito anos, começou a ter aulas de piano, que, na época, era o instrumento de eleição no ensino musical. Fez a formação no Conservatório Joly Braga Santos, mas de forma intermitente, pois o piano e a música clássica diziam-lhe pouco e a sua ambição era ser arquiteto. Entretanto, encontrou outros colegas no liceu interessados na música e começou a usar o piano para outros tipos de música que o motivavam mais, começando a mudança da música erudita para o rock, os blues, os Beatles… Ainda se matriculou em arquitetura, mas percebeu que não tinha muito jeito e acabou por licenciar-se em história e teoria da música, na Universidade de Évora. A vertente prática foi adquirida nas bandas, tendo tocado com o pai, o seu sonho de criança. É o diretor pedagógico da Academia de Música de Portimão, desde a sua fundação, continuando a tocar em bandas. Seguindo, de novo, os passos do pai, tornou-se presidente do Clube União Portimonense, em 2022, a fim de manter a tradição, quando mais ninguém se candidatou. Dinamizou o espaço tanto, que já há pedidos para atuações até meados do próximo ano.
João Segurado é o patriarca da família
Tem 72 anos, mas apaixonou-se pela música aos seis. Cantava pelas ruas, quando ia passear com a avó e formou a sua primeira banda ainda adolescente, para tocar na récita dos sextanistas do Liceu Nacional de Portimão. A sua estreia em público foi um enorme sucesso. Por isso, nunca mais parou, tocando e cantando em hotéis e bares. Mais tarde, criou uma banda de originais, com Vasco Moura. Não conseguiram gravar, porque eram uma banda da “província”, desconhecida. Continuou a criar bandas diferentes, para tocar géneros variados. Passou por praticamente todos os estilos, com todos os músicos portimonenses, até que um problema de saúde o impediu de continuar. Continua, porém, a viver intensamente a música e é respeitado por todos. Ao Portimão Jornal, conta como, há 60 anos, aprendeu a tocar. “Comprei um livro com os acordes ao músico Anatólio Falé, de Lagos, e foi através dele que aprendi a tocar guitarra. Eu e o Manuel da Avó ensaiávamos juntos e aquilo era fácil. Com dois acordes, tocávamos tudo”, recorda entre risos. “Hoje, vão ao Youtube e encontram os vídeos que ensinam tudo”, acrescenta. Sempre preocupado com a cultura e a tradição, fez parte do grupo que decidiu, em 2012, revitalizar o Clube União Portimonense, tornando-se o seu presidente até 2022.








