José Manuel Martins é portimonense por adoção. Nasceu em Odemira, há 67 anos, mas escolheu a cidade algarvia para viver quando tinha pouco mais de 12. Foi onde ficou a residir e construiu uma família e uma vida interessantes. O Portimão Jornal entrevistou-o para dar a conhecer o seu percurso.
Veio para Portimão com os seus pais?
Não, vim sozinho. Vivia num quarto, fui trabalhar como mandarete para o hotel Júpiter, onde estive um ano. Depois, fui para as obras, na ferramentaria, mas aprendi a trabalhar com a grua e, quando o operador faltava, eu substituía-o. Andei nessa vida uns anos, mas comecei também a aprender música com o Vasco Moura da Ruvina. Mais tarde, fui aprender guitarra clássica com o professor Duarte Costa e inscrevi-me em educação musical no Conservatório de Faro. A empresa concedia-me um dia por semana para ir às aulas. O dinheiro que ganhava ia todo para a música. Nessa altura, tive um grande acidente de mota e estive em recuperação por um longo período. Quando recuperei, já não regressei à construção civil.
“Pai, mãe e filho juntos no fado é algo que não se vê muito
e as pessoas gostam”
Foi então que se dedicou inteiramente à música?
É verdade. Tinha cerca de 18 anos e fui dar aulas de guitarra, na Ruvina. Mais tarde, acabei por ficar a trabalhar com eles na loja. Por essa altura, já tocava em conjuntos e fui-me aguentando até ir para a Força Aérea fazer o serviço militar obrigatório, durante dois anos.
E depois do serviço militar?
Regressei à Ruvina e Moura, com contrato de trabalho na loja. E, à noite, tocava no hotel Delfim, onde estive um ano. De seguida, mudei-me para o restaurante Sete, em Alvor, onde estive sete anos. Mas sempre a trabalhar na loja, durante o dia. Era complicado, porque já era casado e tivemos uma filha, que quase não via o pai.
Foi quando decidiu estabelecer-se por conta própria?
Estive na Ruvina e Moura durante 17 anos e, quando falei com eles para sair, foi com a ideia de ir afinar pianos, continuar a dar-lhes assistência, mas dedicando-me mais à música. Entretanto, um amigo do pai da minha esposa, que tinha uma loja de instrumentos em Faro, convenceu-me a abrir uma em Portimão, oferecendo-se para me ajudar. Não era fácil, andei a pensar naquilo durante uns tempos e acabei por arrendar uma loja na Rua Carvalho Araújo e arriscar, já lá vão 32 anos. Mas a ajuda falhou. Contudo, tinha uns amigos em Coimbra, importadores de pianos, bem estabelecidos. Perguntei-lhes se queriam colaborar comigo com os pianos e acabaram por encher-me a casa de todo o tipo de instrumentos, à consignação. Foi uma grande ajuda e acabámos por arrendar uma loja maior, na Rua Infante D. Henrique, quase em frente à primeira, onde estivemos cerca de 20 anos, até nos mudarmos para o estabelecimento atual, também na Rua Infante D. Henrique, onde já levamos mais de 10 anos.

Mas o José Manuel não ficou só pela venda de instrumentos?
Por essa altura, já a minha esposa atuava comigo nos hotéis, eu nas teclas e ela no canto. Fizemos essa vida até à altura da pandemia do Covid-19, embora, por essa altura, já estivéssemos também no fado. E, aos poucos, foi aprendendo o negócio e ajudava-me na loja, porque também comecei a dar aulas de música.
Como se deu a mudança da música de dança e ambiente para o fado?
Sempre gostei muito de fado e já tocava viola, há muitos anos. Entretanto, o Vítor do Carmo deu-me umas dicas, que me ajudaram, e comecei a ir para os fados com ele e o Santana. Depois, o meu filho Sérgio, que estava no jazz, na Escola da Bemposta, decidiu aprender guitarra portuguesa. Começou a vir comigo para a loja, arranjámos uma guitarra portuguesa e ele começou a dar os primeiros passos, com o Filipe Baptista e o Paulo Feiteira. A internet foi uma grande ajuda e o guitarrista que mais o marcou foi o José Manuel Neto. Depois, a Maria da Saudade, que nos ajudou muito no fado, no início. Começou a chamá-lo para a acompanhar, ele foi ganhando calo e começou a ir connosco para um restaurante em Albufeira. Veio o Covid, estávamos fechados em casa, decidimos criar o ‘Conjunto de Guitarras de Fado Sérgio Martins e José Manuel Martins’ e começámos a ensaiar a sério. Tivemos de trabalhar muito, porque acompanhar fado não é fácil. Cada fadista canta no seu tom e no seu estilo. Entretanto, a Noélia, que já tinha uns fados e umas marchas no seu repertório, aumentou-o e, quando solicitada pelos estabelecimentos, canta connosco, como qualquer outro fadista – e já acompanhamos muitos.
“Continuo na afinação de pianos, os arranjos em guitarras, a área
do meu filho, e temos um pequeno estúdio para aulas de música e gravações”
E vão continuar nessa linha?
Sim, porque continuamos em todas as casas onde começámos, o que é um bom sinal. Trabalho nesta área, felizmente, não nos falta. Eu toco viola e o Sérgio guitarra portuguesa. A Noélia é fadista e atua, por vezes, connosco. Pai, mãe e filho juntos no fado é algo que não se vê muito e as pessoas gostam.
As vendas online afetaram muito o vosso negócio?
Imenso. A nós e a toda a gente por este país fora. Estamos a tentar adaptar-nos e, dentro de um mês, devemos ter em funcionamento a nossa loja online. Temos a nossa carteira de clientes e os serviços que prestamos fazem com que os clientes cá venham. Por vezes, compram as guitarras lá fora e, depois, vêm aqui para as arranjarmos, porque não chegam em condições.

Neste momento, que serviços prestam, além da venda de instrumentos?
Continuo na afinação de pianos, que venho fazendo desde o início, arranjos em guitarras, que é a área do meu filho, e temos um pequeno estúdio para aulas de música e gravações. Já temos aulas de guitarra, teclados e bateria. E estamos a pensar criar uma escola de fado a sério, com aulas de canto. E assim vamos sobrevivendo.
Por falar nesse tema, o José Manuel tem outra faceta que poucos conhecem, a de afinador de pianos. Como surgiu essa área?
Na altura em que trabalhava na Ruvina e Moura vendíamos muitos pianos. E, quando era necessário afiná-los, vinha um técnico do Porto. As pessoas tinham de esperar, até que houvesse um número de instrumentos que justificasse a deslocação do profissional, o que não era prático para os clientes. E foi-me proposto ir aprender, para podermos prestar um melhor serviço aos clientes. Embora, na altura, o piano não me despertasse muito interesse, acabei por ir para o Porto, aprender com um grande mestre, Manuel Costa, o chefe das oficinas da Ruvina. Comecei a afinar pianos, embora com alguma dificuldade, a adaptar-me e a dar assistência aos clientes. E, com a ajuda do mestre Costa, tornei-me afinador de pianos a sério. Hoje, tenho muitos clientes em todo o Barlavento algarvio. Alguns deles, que já vêm de há muitos anos.
Futuro passa por uma escola de fado
Uma verdadeira escola de fado, onde se incluam aulas de canto, guitarra portuguesa e guitarra clássica, é o projeto futuro desta família, que detém a casa ‘Instromúsica’, em Portimão. Outras das ideias que têm também em mente para impulsionar é a de dinamizar aulas para aprender a tocar bateria. Em complemento, já existe também o estúdio de gravação que representa uma mais-valia importante neste setor.
“Guitarra portuguesa tem sonoridade única no mundo”
Até o casamento foi fruto da música. Noélia, natural de Estômbar e filha de um músico, tinha 16 anos quando conheceu José Manuel. Pegaram-se de namoro, acabaram por casar, ela canta e, durante muitos anos, fizeram parelha nos hotéis. Agora, estão dedicados ao fado e têm o filho com eles: Sérgio toca guitarra portuguesa, José Manuel toca viola de fado e Noélia é fadista. Sérgio explica, aliás, o porquê do gosto por este instrumento musical. “Tem uma sonoridade que não há igual no mundo. Por sua vez, comecei a gostar de fado, quando o ouvi nas aulas. Mas foi a guitarra portuguesa que me fez gostar do fado e, hoje, é a minha paixão”, resume. Já Noélia, que interpreta o fado, recorda que nem sempre foi fácil conciliar vida pessoal, artística e profissional. “Acabava o trabalho, mudava de roupa e ia atuar nos hotéis. Chegava a casa, dormia cinco horas e levantava-me para levar os miúdos à escola”, recorda.








