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Portimão: Geopolitica reinante do Algarve

Virgilio Machado | Professor

Mea Culpa. Mínguas palavras ou discretas linhas dedicadas a Portimão no meu último livro intitulado Viagem ao Reino do Algarve editado pela Universidade do Algarve. Mas uma viagem nunca é definitiva, como diz Saramago. Se tiver a História por suporte e o Futuro como horizonte. O que reina em Portimão é a geografia e a escrita que nela fizeram os homens: com nomes, símbolos e legados.

Comecemos por símbolos reais. Portimão é nome privilegiado. A palavra “Porto” na formação. Como a cidade invicta. Portos são locais de mercado, onde se importam e exportam produtos, tecnologias, ideias. E se instalam armazéns, entrepostos, agências. Pessoas e bulícios anunciam compras e vendas, trocam moeda por títulos, mercadorias por guias de transporte.

O imaginário geográfico convoca Portimão como parte de uma rede estendida do Atlântico ao Mediterrâneo. O mar deu-lhe vantagem no transporte, sustento na pesca e riqueza no comércio. Juntando vários tipos de homens e fazendo-o lugar único. Juntamos a tradução de “íman” em árabe para fé em português. Os contornos aprofundam-se. A geografia da água foi importante para a mistura de credos e de mercadores. Como fonte de vida humana ou aproveitamento técnico ou económico. Porto de Lagos próximo. Uma identidade hidrológica movimentada.

O escudo de armas do Reino do Algarve tem uma dimensão axial. Com dois reis cristãos e dois muçulmanos. O de armas de Portimão também contempla um de cada em simetria, dignidade, igualdade. Com uma torre vigilante ao centro e o peixe no mar. Tudo aporta força toponímica. Porto de fé ou missão inspira pontes entre Europa e África, entre espiritualidade e temporalidade, entre cristianismo e islamismo. As pontes sobre o Rio Arade espelham-no. Como Portugal, partilha-se a palavra “Porto” na formação. Há grandeza, altivez e robustez nesta simbologia.

Mas que geografia e escritas alimentam este conjunto? A zona ribeirinha de Portimão é valiosa. Tem orientação na foz para um Sul inspirador oceânico e um Norte marcado pela elevação altaneira na Serra. Monchique com São Francisco a inspirá-la. Uma coincidência feliz. Com ela, Portimão pode construir uma monumentalidade única para o seu património cultural. Fazendo a ponte para Portugal, a sua História com um ideário único sobre o Reino do Algarve.

Mas como? Disparate utópico, dirão alguns. Que força, intrigam, tem Portimão? Que reconciliação se pretende? A resposta está na geografia única da cidade. O rio Arade, a montanha próxima, o mar. E nos monumentos que os antepassados nos deixaram. O Convento de São Francisco (outrora, de Nossa Senhora da Esperança), e, do outro lado do rio, o castelo de São João do Arade. Será este a torre do brasão de armas de Portimão? De um passado militar que lhe acrescenta valor histórico?

Neste espaço estreito de rio, construíram-se duas das forças políticas mais importantes do Reino do Algarve, na ausência de uma intervenção direta do rei e cortes de Portugal. De um lado, o franciscanismo, o voto de pobreza e o amor à natureza, ao Céu e à Terra. Com vistas magnificas da serra de Monchique, impulsionadoras do conhecimento. A Norte com Natureza, flora, animais, biologia. A Sul, do mar e de novos continentes. Estamos a falar de uma utopia criativa que empurrou os portugueses para novos mundos.

A observação, a descrição de novidades, a indagação, a curiosidade tem raízes nesta espiritualidade franciscana. O seu convento, ainda que em ruínas, muito vitoria Portimão, aproximando esta urbe de uma História ancestral e universal. Nenhum outro local do Algarve tem a distopia de ter um convento franciscano junto ao rio e à borda do mar, com a serra a dar-lhe elevação teológica para a mística dos Descobrimentos que marcou a história de Portugal e do Algarve.

Mas o outro lado do rio, em ligeira obliquidade, com estreiteza, também importa. O poder militar do canhão, da fortaleza, da robustez da torre e da força das armas, necessária para impor o cumprimento de direitos alfandegários, monopólios ou a segurança dos contratos no comércio. O Reino do Algarve teve um governo militar de armas. A fortaleza de Santa Catarina pode ser inserida nesta viagem.

A Portimão, dedico este contributo. Como o fiz para o Algarve na Viagem que já vai em reimpressão e chegará também neste novo ano ao mundo digital. Em distopia, compete a quem tiver mais força de razão, aproveitá-lo ou não. Ser joia do Mediterrâneo cultural já foi aproveitado por algumas cidades turísticas. Mas do Mediterrâneo Atlântico ainda não. Que o seja Portimão.

Concluo, afirmando, que a História e Algarve devem conjugar-se melhor. Têm mais força do que aparentam. Aprofundam-se raízes. E explicam-se. Pois o Algarve foi Reino. E porque a História fica mais valorizada com a Geopolítica como instrumento. Vai-se acreditando no decurso do tempo que, de distopia a utopia, dá alma à ciência e potencia futuro. O de Portimão é para ser reinante.

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